Classificação

10
Interpretação
8.5
Argumento
8
Realização
10
Banda Sonora

Quem cresceu nos 90’s ou 00’s, tal como eu, habituou-se a ver Jim Carrey quase como um autêntico desenho animado humano: as suas expressões faciais, os seus movimentos, até mesmo o tom da sua voz. O seu nome estava associado à comédia como se fosse o seu sinónimo, quase todos os seus filmes prometiam arrancar-nos enormes gargalhadas (e cumpriam a promessa), mas desengane-se quem acha que Carrey só combina com comédia.

Kidding conta-nos a história de Jeff, um homem bondoso e gentil que é também um ícone da televisão infantil. Jeff é adorado por miúdos e graúdos, o seu programa é um sucesso, mas, por detrás das câmaras, enfrenta uma enorme crise familiar. Jeff não sabe como lidar com o que está a acontecer e sente-se cada vez mais em baixo, tendo até dificuldade em evitar trazer os problemas pessoais para o seu programa.

Jim Carrey já nos tinha provado em Eternal Sunshine Of The Spotless Mind (onde, por acaso, também trabalhou com Gondry) que também era um excelente ator dramático, mas atrevo-me a dizer que consegue ser ainda melhor em Kidding. Nesta série, ele dá-nos o ”melhor dos dois mundos”, pois a série também tem os seus momentos de comédia (na medida adequada), momentos esses que por segundos nos devolvem à lembrança os seus filmes de comédia com os quais crescemos. Mas, por muito que goste imenso de Carrey como ator de comédia, em drama ele é excelente. É tão real e tão genuíno que sentimos pena da sua personagem, revoltamo-nos com a injustiça que ela enfrenta, queremos que fique tudo bem no final e sentimo-nos tristes ao constatar que nada podemos fazer. Kidding tem uma enorme profundidade emocional e o desempenho de Jim Carrey é o responsável principal por isso. Dá para sentir a dor da sua personagem deste lado do ecrã. Na minha opinião, não é fácil interpretar um papel dramático, pois há que se ser intenso, mas sem cair no exagero, algo que pode ser complicado, mas Carrey  fá-lo na perfeição, sem extremos: observamos e vemos realismo. Impressionou-me imenso e, embora ainda só tenha visto um episódio, posso dizer que é das melhores representações dramáticas que alguma vez vi numa série.

A história em si tem tanto de bonita como de triste: um homem tão bondoso rodeado por uma situação tão revoltante. Fascinamo-nos com as coisas que Jeff diz no seu programa, com a sabedoria que transmite às crianças, com o seu jeito para lidar com elas e com a sua forma de ver o mundo. E entristece-nos ver algo tão injusto a acontecer a alguém com uma personalidade tão especial como a sua. Levanta-se então uma daquelas questões de cariz algo infantil, mas que ocasionalmente ainda nos perguntamos enquanto adultos: ”porque é que acontecem coisas más a pessoas boas?”.

Acho que Kidding tem tudo para ser uma grande série e espero que tenha o reconhecimento que merece. É de uma simplicidade tão bela que vê-la aquece o coração.

Beatriz Reis