Classificação

8
Interpretação
8.5
Argumento
8.5
Realização
6
Banda Sonora

[Pode conter spoilers]

O Nome da Rosa é, em si, um nome que ecoa até no ouvido mais surdo. Pelo que foi há trinta anos atrás com Sean Connery, pela envolvência do livro que despertou multidões de opostos, por suscitar novamente curiosidade e, ao fim de tanto tempo, manter-se tão atual quanto ao cerne do ser humano.

Trago-vos no coração o primeiro episódio. Trago-vos, também, uma série que tem notoriamente mais tempo para se encontrar com os personagens, as suas expressões, com a nossa própria moral.

O episódio inicia-se perdido numa batalha medieval, no Norte de Itália, expondo, desde logo, a dicotomia entre cólera, violência, fúria e benevolência, compreensão, salvação. Apresenta-nos um rei sexista e um filho inconformado (Adso) que, por sua vez, parte em busca do auto-conhecimento e compaixão, em rebeldia às ordens reais paternas (eu sei, podia tão bem ser um millennial). Adso da Melk (Damien Hardung) encontra a sua missão ao cruzar-se com um monge franciscano, de seu nome William de Baskerville (John Turturro), filósofo, nada apologista de violência e tortura, justifica-lhe a fé que apregoa no seu genuíno altruísmo. Pese embora a minha eterna paixão por Connery, devo admitir que Turturro consegue, de forma tocante, conquistar-nos e acolher-nos na luta contra a demagogia através da força do conhecimento.

Partem ambos até uma abadia isolada, a mando do Rei. Porém, e numa ótima realização com destaque para a alternância entre luz e sombra em momentos cruciais, a abadia é confrontada com uma primeira morte, ponto de partida entre a compreensão do bem e do mal, do medo, da revolta, da discórdia, da fé. Baskerville, pela sua inteligência e, também para que haja controlo sob o mesmo, é destacado para investigar o homicídio. Completamente limitado por imposição do Inquisidor, apercebe-se que para o resolver necessita de alcançar e apaziguar os que, seja de boa fé ou por vingança e intriga, ocultam pistas que, embora singelas, podem ser determinantes.

E surge assim um segundo homicídio. O terror, o drama, o suspense! Todo um desconcertante desenrolar que surpreende qualquer envolvido, fortalece o medo dos fracos de espírito, encorajando, ainda mais, a ideia de heresia.

Enfatizo que todos nós já conhecemos esta história, talvez, como eu, de trás para a frente. Não é a história, em si, que se pretende diferente, a meu ver. É descortinar se, efetivamente, a conseguem trazer de forma mais pormenorizada, melhorada em termos artísticos. E, hoje, conseguiram-no!

Vão por esta herege: valerá sempre a pena.

Post scriptum (sempre quis colocar isto por extenso, lidem com isso): Deixo-vos com as palavras do ator Rupert Everett à Vanity Fair italiana, permitindo-me fazer-lhe um vénia não só pelo magnífico contracenar neste episódio, mas também por isto:

“É a minha cruzada contra a cultura em que cresci: aos 7 anos, os meus pais mandaram-me para Ampleforth, um mosteiro beneditino austero. E, em geral, contra a Igreja Católica que, na Idade Média, foi mais terrível que o ISIS e que, ainda hoje, me quer ver no inferno pelo simples facto de ser gay”.

Débora Gonçalves