Classificação

4.5
Interpretação
4
Argumento
3
Realização
6
Banda Sonora

Four More Shots Please! chega até nós através da Amazon numa tentativa da plataforma imitar o que a Netflix tem feito nos últimos tempos: apresentar séries dos mais diversos países. Com uma sinopse muito simples e objetiva, Four More Shots Please! acompanha quatro amigas de Mumbai, nas suas conquistas e medos.

A primeira grande dificuldade com que nos deparámos foi a falta de legendas portuguesas. Visualizar uma série indiana, falada em inglês com um sotaque vincadamente indiano, onde alguns personagens vão intercalando o inglês com a sua língua nativa acaba por se transformar num esforço hercúleo. É verdade que as legendas inglesas ajudam bastante nos diálogos indianos, mas não o suficiente.

Talvez a falta de compreensão esteja também no guião que acabou por não cumprir na apresentação de quatro jovens independentes e seguras que lutam para se afirmar numa Índia moderna e culturalmente ocidentalizada, cuja libertação pessoal, ou mesmo sexual, é símbolo da emancipação feminina daquele país. Contudo, o que na realidade assisti foi a um grupo de quatro tontinhas que ridicularizam as mulheres emancipadas indianas, rodeadas de clichés, inseguranças e das piores cenas pontuais de comédia numa série que a plataforma que a distribui caracteriza como drama. Voltando ao guião, a organização da evolução do piloto parece que foi acontecendo de forma acidental, em que a montagem das cenas foi feita de forma aleatória, já que a passagem entre momentos é feita ao acaso e, na maioria das vezes, incompreensível.

Caso estejam a duvidar do que escrevo no parágrafo anterior, segue uma breve caracterização das quatro tontinhas, perdão, personagens principais: Damini Rizvi Roy (Sayani Gupta) é uma jornalista de investigação de sucesso que possui uma doença urinária e que despe mentalmente todos os homens que acha atraentes; Anjana Menon (Kirti Kulhari) é uma advogada de sucesso, mãe solteira, divorciada há seis anos, que morre de ciúmes do ex-marido; Umang Singh (Bani J) é a rebelde treinadora pessoal que engata homens  no ginásio e mulheres no wc dos bares onde se encontra com as amigas; Siddhi Patel (Maanvi Gagroo) é uma jovem desconfortável com o seu corpo que come chocolates e que quer confiar na vidente da sua mãe para lhe arranjar o marido perfeito. Sendo assim, as personagens principais, embora minimamente apresentadas, são ocas e acabam por não criar empatia. Por muito que queiramos gostar de uma, ou até tentar perceber onde está a mulher emancipada, não há muito que nos possa chamar a atenção em todas elas.

Embora não seja adepto de spoilers, fui espreitar o que se escreve por aí sobre a série. O que li refere que a série acaba por melhorar um pouco a partir do terceiro episódio, contudo, eu fico-me mesmo pelo piloto. Sinto-me defraudado por ter perdido pouco menos de meia do meu limitado “tempo de ver séries” numa tentativa falhada de criar uma versão de Sex and the City indiana, onde o machismo vigente claramente ridicularizou o que inicialmente era pretendido: uma visão sobre o feminismo.

Rui André Pereira