Não sei se o mesmo acontece convosco ou não, mas apesar de os meus gostos terem mudado muito ao longo dos anos, apercebi-me que há algo que adoro desde os tempos de miúda em que via novelas, antes de ter descoberto a minha paixão pelas séries.

Qual é então essa constante com mais de vinte anos? A minha tendência para adorar personagens femininas evil, bitches e badass. Ser uma das três coisas não implica ser a(s) outra(s), mas nalguns casos irá certamente haver uma convergência. Peço-vos só um bocadinho de paciência e de margem de manobra, visto que vou falar brevemente sobre duas novelas e depois partir para as séries, mas só faz sentido analisar esta questão passando pelas várias personagens que me marcaram ao longo dos anos.

Quem se lembra de Suave Veneno? Provavelmente não foi a primeira novela que vi, mas é a primeira de que me recordo bem. Os anos varreram a trama da minha memória, mas não me esqueci da fabulosa Maria Regina (cujo nome tem outra pinta dito com sotaque brasileiro), interpretada por Letícia Spiller. Ela é aquilo a que a maioria das pessoas chamaria uma verdadeira megera. Para mim era favorite character material. Sei que se me deparasse com a novela por acaso, nos dias de hoje, continuaria a adorar Maria Regina. A minha memória pode estar novamente a trair-me, mas acho que cheguei a brincar, no recreio da escola primária, a qualquer coisa relacionada com esta novela. Sempre adorei histórias, isso também não mudou!

Várias outras novelas houve de que gostei e de que me lembro, mas só vale a pena mencionar mais uma com uma vilã que adorei: a flawed Susana Garrido de Mafalda Vilhena em Sonhos Traídos. Ok, nem sei se lhe podemos chamar propriamente a vilã da história, mas também não seria desadequado fazê-lo. No entanto, se sempre gostei de personagens más (mas só no feminino), a verdade é que elas nunca eram totalmente maléficas. Havia sempre um lado, bem… menos evil. Às vezes muito enterrado lá no fundo, mas estava lá. Aprecio quando as pessoas são capazes de alguma espécie de expiação por aquilo que fizeram!

Ainda nesta categoria, que personagem se adequa melhor do que a Evil Queen/Regina Mills de Once Upon a Time? Apesar de  não ter sido a primeira Regina da minha vida televisiva, será sempre a eleita! Mesmo mantendo-me em OUaT, posso apontar outras personagens extraordinárias como a também minha adorada Zelena ou até Maleficent, que, apesar de ter tido pouco de tempo de antena, me deixou saudades. O que é que estas três mulheres têm em comum? Circunstâncias da vida levaram-nas a um caminho em que decidiram optar pelo mal, destruindo as vidas de outros, mas também parte delas mesmas. Depois, novas circunstâncias permitiram que se redimissem. Adorei todos os segundos dos seus percursos, com um fraquinho especial por dois extremos: a altura em que eram verdadeiras vilãs e aquela em que mostraram o seu lado mais vulnerável. Aqui acho que é também justo colocar Serena Joy de The Handmaid’s Tale. Antes de começar a ver a série já suspeitava que ela seria a minha personagem favorita e acho que não foram precisos muitos minutos para o confirmar. Serena é o tipo de personagem que quase me sinto culpada por adorar (se bem que neste preciso momento não me sinto muito culpada. Estou demasiado desiludida com a personagem para me lembrar que é uma das minhas favoritas das séries). Ela consegue ser uma pessoa horrível, cruel… Só que há momentos em que nos relembra que é humana e capaz de fazer coisas boas. Os dois lados dela fascinam-me de igual forma!

Todas as personagens mencionadas até aqui me fizeram adorá-las, mesmo que possa não haver grandes motivos para isso, mas também há outras, como Cersei Lannister de Game of Thrones ou Victoria Grayson de Revenge, que adoro ver no ecrã e que são das minhas favoritas das respetivas séries, mas em relação às quais não sinto uma ligação emocional. Até eu considero demasiado perturbador gostar realmente de alguém como Cersei, mas não há como negar que é interessante quando ela está no ecrã a destilar ódio e a beber um copo de vinho, paz à sua alma infernal!

Personagens como as até aqui mencionadas não abundam propriamente, mas quando estamos a falar de bitches, a variedade já é maior. Cada caso é um caso, mas elas costumam primar por uma língua afiada ou por ter sempre uma resposta pronta, são divertidas – embora o mau humor também possa ser uma característica – e seguras de si, têm uma bússola moral que nem sempre pende para o lado do bem, mas não são propriamente más pessoas. Charlotte King (Private Practice), Edie Britt e Renee Perry (Desperate Housewives), Ella Sims (Melrose Place), Joséphine Karlsson (Engrenages), Julie Cooper (The O.C.), Sophia Bowers (Deception), Victoria Davis (One Tree Hill), Diane Buckley (Trophy Wife) e Karen Walker (Will & Grace) são alguns dos nomes de que me consigo lembrar e que aqui se encaixam na perfeição, sendo que algumas até constam de uma anterior crónica minha relacionada com o tema. E a Addison Montgomery, que antes de ser a personagem principal de Private Practice nos agraciou com a sua presença em Grey’s Anatomy! Sempre tive a sensação de que Addison foi pensada para ser a ‘vilã’ que se vinha intrometer na história de amor de Derek e Meredith, mas aquela fachada (da qual fiquei fã, sinceramente) do primeiro episódio em que apareceu não tardou a mostrar uma mulher que tinha cometido erros, é certo, mas sem uma ponta de maldade.

Por fim, gente badass! Já foram muitas as vezes em que, ao longo dos anos, usei a expressão (e perdoem-me a palavra mais brejeira!): “adoro ver gajas a dar pancada”. Por isso é que, dentro do possível, não perdia um episódio de Xena: Warrior Princess, Alias ou She Spies. No entanto, ser badass não tem apenas a ver com “dar pancada”, mas com uma capacidade de enfrentar os problemas, de agir e lidar com os louros ou as consequências, de ser forte… É possível ser badass de tantas formas que se calhar dava para ficarmos aqui a noite toda. Jessica Jones também dá pancada, mas é a sua capacidade de lidar com os demónios pessoais que a tornam verdadeiramente badass. Piper Chapman até pode gostar de arranjar sarilhos, mas está sempre pronta a lutar contra as injustiças e, à sua maneira, é uma mulher de causas. Emma Swan ultrapassou uma infância e adolescência em que esteve sempre sozinha no mundo e tornou-se uma heroína digna dos melhores contos de fadas. Brooke Davis lidou com desgostos atrás de desgostos, foi fisicamente atacada, mas nunca se deixou vergar, nem permitiu que as coisas más fizessem dela outra coisa que não uma das pessoas mais genuínas e de coração puro do mundo das séries.

Gosto de personagens boas em termos morais, mas sempre detestei as boazinhas sem sal. No entanto, grande parte das vezes, são mesmo as pestes e as megeras que mais facilmente me conquistam. Quem me conhece sabe que assim é desde pequena. Se em vinte anos ou mais assim foi, calculo que não seja daqui para a frente que alguma coisa mude. Antes de começar uma série, mesmo pouco sabendo sobre ela, consigo prever a personagem de quem mais vou gostar. Não é infalível, mas é bastante certeiro. Aliás, lembro-me de estar a comentar com amigas a minha paixão por esta ou aquela personagem e receber um “já sabia” ou um “tinha de ser” como resposta. Não é uma questão de ser propriamente previsível (até porque prefiro utilizar a palavra consistente), mas de ter um certo padrão.

Quanto ao facto de as minhas personagens preferidas serem sempre mulheres, penso que é por me identificar mais com elas. Essa questão não será tema de nova crónica porque não consigo ir muito para além desta simples explicação, embora seja algo em que já pensei muitas vezes.

E vocês desse lado, também há um padrão para as vossas personagens preferidas? Partilhem connosco!

Diana Sampaio