Classificação

9
Interpretação
9
Argumento
8
Realização
10
Banda Sonora

Gostava muito de vos deixar aqui um resumo lindo e conciso sobre o que é Euphoria, mas não é possível. O melhor que posso fazer é isto: VEJAM.

A primeira coisa que devem ter reparado quando clicaram nesta review foi a classificação altíssima. Se não repararam olhem agora, está mesmo aqui à esquerda. Okay, boa. Agora um pequeno disclaimer: se são o tipo de pessoa que se costuma desiludir quando cria expectativas antes de ver uma série, aconselho-vos a pararem de ler, irem ver o primeiro episódio daquilo que potencialmente será a vossa nova série favorita e voltem quando estiverem prontos para falar do assunto. Digo-vos isto, atenção, não porque ache que a série vos vá desiludir, mas porque acho sinceramente que a merecem experienciar em toda a sua glória, sem que a minha opinião ou as vossas expectativas interfiram. Portanto, a sério, vão ver o piloto. Já cá voltam!

Voltando então à questão da classificação. Este foi o primeiro piloto que eu vi na vida (que me lembre, pelo menos) que fez absolutamente tudo o que um piloto deve fazer. Não só nos apresentou uma série brilhante, como nos mostrou aquilo que vai ser a estética da série, como é que vai soar, de que perspetiva nos vai ser contada, sobre o que é e, mais importante, sobre quem é. Em menos de uma hora, criamos uma ligação com Rue (Zendaya), desenvolvemos empatia pela pessoa de quem ela mais gosta (Hunter Schafer no papel de Jules), e fica-nos a curiosidade sobre o futuro dos amigos e da família a quem Rue nos apresenta. Não há nada que fique por explicar e, no entanto, queremos mais porque percebemos perfeitamente que há muito mais para ver. Ainda há muito para vir e nós queremos estar lá quando acontecer, queremos saber tudo. Dada a linha da própria história (que passa muito pela relação de Rue com as drogas), o facto de ser viciante é só uma das muitas ironias da série.

Outra questão brilhante e particularmente irónica é que, numa série sobre uma geração apática, egocêntrica, desligada, constantemente desvalorizada e em estado permanente de ansiedade, tenhamos performances tão profundas, tão empáticas e tão generosas como as que vemos aqui. Zendaya é, numa palavra, comovente. Carrega a série com segurança e aparente facilidade e relaciona-se com o espectador de uma maneira que nos puxa para a ação, quase como se estivesse a criar um espaço para nós dentro da própria série. Hunter Schafer surpreende-nos desde o primeiro momento na maneira como se entrega à personagem de Jules sem qualquer hesitação nem pudor, numa genuinidade que se projeta para lá do ecrã. Na verdade, numa série com tantas caras novas (e algumas mais familiares como é o caso de Eric Dane, que muitos de nós lembramos como Dr. Mark Sloan de Grey’s Anatomy) essa entrega e essa genuinidade são o que mais surpreende e o que faz com que seja tão fácil relacionarmo-nos com estas personagens. No fundo podíamos ser nós, os nossos pais, os nossos amigos.

Euphoria é uma série tão marcadamente atual que depende muito dessa ilusão de verdade. E a verdade (pun intended) é que consegue criar uma história de tal forma envolvente que se torna real. Nisto, a banda sonora é brilhante. Além do habitual “barulho de fundo” que geralmente serve para criar ambiente e da música necessária para alimentar a vida de qualquer pessoa, em particular adolescente, a viver no séc. XXI, temos momentos espetaculares de silêncio. Um silêncio opressivo, ou angustiante, ou pacífico. Mas em todas as ocasiões, o silêncio perfeito para suportar a emoção da cena.

Das séries que vi recentemente, Euphoria é sem dúvida a mais prometedora. O foco e o tema são acima de tudo as personagens e a preocupação parece ser, acima de tudo, contar as suas histórias. Não é mais do que um conjunto de miúdos, completamente desamparados, à deriva num sistema que não foi construído nem estragado por eles (como Rue faz questão de notar), mas pelo qual são constantemente culpabilizados, a tentar lidar com as consequências dessa pressão. São só pessoas, humanas e problemáticas, a tentar lidar com a vida da melhor forma que podem, e é absolutamente magnífico.

Portanto, se ignoraste o conselho que dei no segundo parágrafo, faz um favor a ti próprio e vai ver a série. Juro que não te vais arrepender!

Raquel David