Habitualmente as nossas crónicas são lançadas aos sábados, mas como hoje se celebra o Dia Internacional da Mulher e não quis deixar passar a data ao lado, desta vez temos uma edição à sexta.

Já aqui tinha dito, em tempos, que não gosto do Dia da Mulher. Primeiro, porque no século XXI, já seria de esperar que estivéssemos em pé de igualdade em relação aos homens e não estamos, mas sobretudo porque esta se tornou uma data que serve para as pessoas se juntarem e fazerem jantares. Não é que haja mal algum nisso, mas historicamente é tão mais relevante do que isso!

Prometo que vou já falar de séries, mas primeiro deixem-me guiar-vos um bocadinho pela origem do Dia da Mulher. A ideia de criar este dia remonta à segunda metade do século XIX e ganha força no início do século XX, tanto na Europa como nos Estados Unidos. Isto acontece numa altura em que as mulheres lutavam por conquistar o direito de voto e melhores condições de vida e laborais. É por isso que não falho nenhumas eleições! É um direito, mas também um dever honrar aquilo que nem sempre tivemos como garantido. O ano de 1975 foi designado pela ONU como o Ano Internacional da Mulher e o dia 8 de março tornou-se a data oficial para nos homenagear.

E agora sim, quero falar um bocadinho sobre séries que considero que deram um bom contributo a celebrar a força das mulheres e as suas lutas. Podiam ter sido outras, podiam ter sido muitas mais, mas estas destacaram-se, por motivos diferentes.

Numa indústria em que os protagonistas continuam a ser sobretudo masculinos, já é positivo vermos mulheres como os rostos principais de uma série. Parece pouco, mas quando ainda há um longo caminho a percorrer, todas as pequenas vitórias são importantes. Muito recentemente, houve uma série que me chamou a atenção por aquilo a que eu gosto de chamar girl power. A expressão não é minha, claro está, mas vou pedi-la emprestada. Estou a falar de Big Little Lies, a série da HBO que nos trouxe quatro protagonistas maravilhosas (Nicole Kidman, Reese Witherspoon, Shailene Woodley e Laura Dern) com papéis igualmente fantásticos, nomeadamente o da mulher rica com vida aparentemente perfeita, mas que vive um verdadeiro pesadelo com um marido abusivo, e o da jovem mãe que tenta fazer de tudo para educar sozinha o filho. No entanto, foi o final que me emocionou verdadeiramente, com aquelas mulheres a unirem-se para proteger uma delas. Puseram de lado as diferenças que havia entre várias delas para que aquela mulher que era violentada há anos não tivesse que sofrer nem mais um único abuso. Nenhuma sabia o que se passava porque Celeste não falou sobre isso. Carregou o fardo sozinha com o seu monstro e depois o monstro morreu e ela ficou livre. Parece-me um final tão melhor do que o das mulheres que na realidade acabam mortas às mãos dos maridos quando tentam sair da relação!

Noutro espectro, Once Upon a Time e The Good Fight também me surpreenderam muito pela positiva. Em OUAT, as mulheres travaram sempre as suas próprias lutas, foram as heroínas das suas próprias histórias. No entanto, a melhor surpresa estava reservada para o final. Acho que é capaz de ter sido o final mais feminista de sempre! Regina teve o seu final feliz, mas o seu final feliz não foi uma relação com um homem, foi a sua transformação de Evil Queen para Good Queen e a família que construiu pelo caminho, com a irmã Zelena, mas também com os Charming, a boa relação que conseguiu criar com Henry, que no início da série a via mais como a vilã dos contos de fadas do que como mãe. Atenção, eu não tenho nada contra as pessoas que veem numa relação amorosa a sua forma de serem felizes, só estou um pouco cansada de ver o quanto nas séries essa parece ser a única fonte de felicidade e realização pessoal. E chateia-me um bocado que as pessoas tenham o hábito de me perguntar se tenho namorado e quando é que arranjo um. É assim tão estranho que uma jovem se sinta bem solteira e não tenha intenções de casar e/ou constituir família? É por isso que gosto tanto do final de Once Upon a Time, porque mostra que há formas diferentes de viver a vida. Também o final da 2.ª temporada de The Good Fight ofereceu uma alternativa às histórias dos casais felizes com bebés. Tivemos uma das três protagonistas a perceber que, apesar de ter um recém-nascido, não queria ficar com o pai do bebé. Ele amava-a e talvez ela o amasse também, mas não era aquela a vida que queria. As melhores amigas dela surgiram aqui como tudo de que a personagem precisava, porque a felicidade tem a ver com termos à nossa volta as pessoas que amamos e nem sempre isso se traduz num romance.

Já muito se tem falado sobre a disparidade salarial entre homens e mulheres, nomeadamente na indústria televisiva, e sobre a falta de oportunidades que há para as mulheres em cargos de realizadoras, argumentistas ou outros, mas há duas séries que quero mencionar pelo destaque que tem dado às mulheres no mundo do trabalho: Grey’s Anatomy e Homeland. A série médica apresentou-nos desde muito cedo médicas jovens e brilhantes que se destacaram nas suas áreas. Primeiro Cristina Yang, a genial interna de cirurgia que rapidamente deu cartas em Cardio, e Callie Torres, a jovem residente de Ortopedia que era a principal figura do departamento muito antes de ter assumido oficialmente o cargo; mas também Ellis Grey, a mulher que conhecemos sobretudo através da filha e que apesar de ter falhado muito como mãe foi uma pioneira na sua área de trabalho. Tornou-se cirurgiã numa altura em que eram muito raras as mulheres nesse campo, lutou contra o preconceito e foi uma das melhores – se não mesmo A melhor – médicas da sua geração. Addison Montgomery, Arizona Robbins, Amelia Shepherd, Maggie Pierce, Meredith Grey e Miranda Bailey são todos nomes de grandes profissionais, de médicas que se revelaram as melhores nos seus campos e em idades bastante jovens. Ok, aqui a série é capaz de ser um bocadinho irrealista nos feitos que os seus médicos alcançam em certas idades, mas dá mesmo a sensação, principalmente nos anos mais recentes, que aquele hospital é gerido por mulheres.

Aqui dá também para estabelecer um paralelismo com Homeland, onde temos uma personagem principal feminina e muitas outras mulheres poderosas à sua volta. Não sei quais são as estatísticas da CIA e de outras agências na realidade, mas não estou convicta de que tenham muitas mulheres. Se estiver enganada, ainda melhor, há coisas em que não me importo de não ter razão. Além de Carrie, há uma série de outras personagens imensamente interessantes, como Martha Boyd, a embaixadora americana do Paquistão; Allison Carr, a agente dupla; Astrid, dos Serviços de Inteligência alemães; ou Elizabeth Keane, a presidente americana. É claro que, na realidade, os Estados Unidos nunca teriam uma presidente real primeiro do que na ficção! Pode ser que seja um daqueles casos em que a vida real imita a arte, já em 2020. Pelo menos, eu não estou preparada para mais quatro anos de Trump! É preciso alguém que una as pessoas e não que as afaste!

Recentemente estava a ver Call the Midwife e disse para mim mesma que também tinha de falar sobre a série nesta crónica. Apesar de ser passada nas décadas de 50 e 60, numa zona pobre, e de ter como personagens principais várias freiras, pessoas que são muitas vezes associadas a um certo conservadorismo, acho que não há muitas mais séries que sejam tão perfeitas a demonstrar o significado de humanidade e de aceitação. Era apenas disso que muitas jovens mães e mulheres precisariam, sem juízos de valor, sem preconceitos.

São séries, mas nunca nos podemos referir a elas como APENAS ficção. São uma fonte de aprendizagem, uma forma de nos expormos a realidades diferentes. Houve com toda a certeza muitas meninas neste mundo a sonharem em ser a primeira mulher a votar, a primeira a tirar um curso superior, a primeira a tornar-se cirurgiã, a primeira a tornar-se governante de um país, a primeira a tornar-se a presidente de uma grande empresa… Tudo isto já aconteceu. É por isso que é importante recordarmos o verdadeiro significado deste dia. Até porque enquanto no Ocidente todas estas conquistas já foram possíveis, continua a haver muitos locais no mundo em que as mulheres não podem sequer sair à rua sozinhas, conduzir ou prosseguir estudos. E enquanto as séries nos mostrarem que há tanta coisa que é possível, nem que seja sonhar… Bem, já é alguma coisa!

Diana Sampaio