Por intermédio da Netflix, estivemos à conversa com Maximilian Mundt e Lena Klenke, protagonistas de How to Sell Drugs Online (Fast), a segunda série alemã da Netflix a tornar-se viral no resto do mundo. Maximilian (ou Max) interpreta Moritz, um jovem muito inteligente que decide começar a vender drogas online, e Lena interpreta Lisa, que é o amor da vida de Moritz e que regressa de uma estadia longa dos Estados Unidos. A série conta-nos de uma forma leve e divertida uma história baseada em factos reais sobre um jovem que se tornou rico a vender drogas num site. A série foi recentemente renovada para uma 3.ª temporada.

Em baixo segue-se a entrevista transcrita (com aviso de spoilers para a 1.ª temporada). Está ainda disponível em formato de vídeo e áudio no final do artigo.
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Lisa, durante a 1.ª temporada tiveste que interpretar uma rapariga que estava a ter dúvidas sobre ela própria e o que quer da vida. Apesar de parecer confiante, estava a ter uma luta interna. Como foi o processo de a trazeres à vida?

Lena: Senti quase que era uma viagem ao meu tempo de adolescente. Acho que é a altura onde ninguém sabe o que quer e o que se está a passar. E quando passas tempo fora, como a Lisa passou na América, voltas a casa e sentes-te perdida. Eu identifiquei-me muito com isso porque também eu, aos 16 anos, estive na América e quando voltei não sabia bem onde era a minha casa e quem eram os meus amigos. Portanto, para a história da Lisa regressei às minhas memórias, lembrei-me de como me sentia, que questões tinha e o que me trazia um sentimento de pertença.
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Max, tu e o Danilo [Kamber – Lenny Sander na série] têm contacto com muitos conteúdos informáticos, como linguagens de programação. Tiveram alguma preparação especial, por exemplo aulas de programação, instrutores de escrita, aprenderam sobre conceitos como a Deep/Dark Web?

Max: Tivemos algumas aulas sobre programação e tive de usar as teclas, mas muito do que estava na série foi feito por duplos de mãos, porque não o conseguíamos fazer tão rápido e de forma tão profissional. Tentámos, claro, e as cenas com menos programação foram feitas por nós, mas os ângulos mais próximos eram sempre com duplos de mãos, verdadeiros profissionais que faziam a programação.
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O que acham deste novo e invulgar formato de seis episódios de 30 minutos por temporada? Acham melhor por conseguir manter a história concisa e, portanto, com um melhor enredo e performance, ou acham que vos falta tempo para desenvolverem as vossas personagens?

Max: Muitos fãs ficam com pena que seja rápido e curto, mas também se chama ‘como vender drogas online (rápido)’. Eu gosto, porque parece um pequeno lanche, conseguem gostar de forma rápida e refrescante. Eu gosto desta forma.

Lena: Eu acho muito bom, porque a nossa capacidade de atenção está mais reduzida, estamos habituados a fazer muita coisa ao mesmo tempo. Eu por exemplo sinto que alguns episódios de uma hora são demasiado longos e às vezes não sei o que está a acontecer. Portanto, é muito bom que sejam episódios de meia hora. Depois vão para o próximo episódio, tudo parece rápido, e conseguimos manter-nos a par de tudo. Mas também sinto que uma temporada poderia ter oito ou mesmo 10 episódios, porque acaba demasiado depressa e temos de esperar por outra temporada. É algo que me deixa um pouco chateada, mas é bom que as pessoas fiquem em ânsias pela temporada seguinte.
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Talvez seja por isso mesmo que as pessoas ficaram ansiosas pela 2.ª temporada. Vimos a 1.ª temporada recentemente e queríamos mais episódios, por isso está a resultar! O que é nos podem contar sobre a 2.ª temporada, o que podemos esperar agora que Dan faz parte do grupo? Talvez Lisa também se junte? Pelo menos, no final do último episódio parece que vai acontecer.

Max: O que podemos esperar é mais ação, drama e mais lágrimas e, claro, muito mais luta, porque agora Dan faz parte do grupo e ele também está a tentar obter algum dinheiro de Lenny e de Mo. Eles agora são milionários, têm o seu primeiro milhão na conta bancária ou na carteira de Bitcoin. Ah, e Buba também morreu na 1.ª temporada, a sua família está à procura de vingança, portanto, muito drama para os rapazes.

Lena: Não vos posso contar muito porque não quero dar spoilers, mas definitivamente sabemos que ela sabe de tudo. Mas não sabemos se ela vai voltar a juntar-se a Mo, se se junta ao negócio ou se não quer ter nada a ver com isso. Não sabemos isso, mas posso dizer-vos que na 2.ª temporada vamos mais a fundo nas personagens, algo de que gostei muito, porque na 1.ª temporada tudo acontece demasiado depressa e não conhecemos bem ninguém. Há muita coisa a acontecer. Portanto, na 2.ª temporada há mais tempo para cada personagem se desenvolver e é muito bom de se ver.

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Para o espectador, fica claro que os criadores têm em mente um final. Ao longo dos episódios, estamos a ver a história contada a partir do fim – o futuro – e estamos a descobrir como se chega lá. Têm alguma ideia de quantas temporadas estarão planeadas?

Max: Não faço ideia. Mas espero que muitas mais temporadas, porque há muita coisa que podemos falar depois da 2.ª temporada. Temos conteúdo para mais temporadas, portanto acho que nem os criadores sabem. Eles mostram-se muito abertos a isso e talvez haja a possibilidade de colocarem a cena da entrevista a meio, na 3.ª ou 4.ª temporada, e continuem a mostrar o futuro a partir daí sem que saibamos o que já está a acontecer.

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Uma das melhores coisas desta série é que nenhuma personagem é 100% boa ou má. Tendo em conta o que Moritz fez e os motivos porque o fez, e olhando para para tudo o que Lisa passou, as suas experiências e decisões, de que lado do espectro acham que se encontram as vossas personagens: no positivo ou no negativo?

Max: Acho que na 2.ª temporada ele acaba mais no espectro negativo. Torna-se um pouco no vilão.

Lena: É difícil. Como disseste, ninguém é mau ou bom. Nunca sabemos. E nunca sabemos em quem podemos confiar; mesmo com Lisa, não sabemos se ela vai contar sobre eles ou se é de confiança. Eu diria que como ela os conhece há tanto tempo ela quer o melhor para eles, por isso estaria mais no lado bom.
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Durante a série, especialmente durante a apresentação de Moritz e de Gerda, vemos os conceitos da droga a serem abordados, pondo até em cima da mesa questões sobre a sua legalização. É algo que irá ser abordado mais tarde?

Lena: Sim, é mesmo bom o facto de não passarmos a imagem só de ‘as drogas são más, não as consumam‘, mas também não dizemos para as pessoas fazerem o que quiserem. O que fazemos é explicar tudo, o processo todo – o que acaba por ser muito bom até para as pessoas mais novas que vejam HTSDOF. [Durante os episódios] estamos a explicar, de uma forma leve e engraçada (não como um documentário chato que se vê na escola), o efeito das drogas e o que acontece em consequência do seu consumo e acho que isso é muito importante. Se algum dia [os espectadores] decidirem consumir drogas, [HTSDOF] é também uma fonte de informação onde podem perceber o efeito que estas têm no corpo. Este formato continua sem dúvida na 2.ª temporada: existem imensos momentos onde nos explicam algo que não é conhecimento comum ou não sabíamos, mas sempre com uma postura mais leviana e cómica.

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A série é baseada numa história real, e algumas pessoas dizem que não é tão violenta como a realidade. Esta foi uma escolha criativa – uma vez que a série é considerada como comédia – ou foi apenas uma decisão vossa e dos criadores de como contar a história?

Max: Na realidade a história onde a nossa se baseia é muito mais aborrecida. É apenas um homem, num quarto escuro sozinho, sem amigos ou sem uma história de amor. Claro que vender drogas é muito perigoso, mas acho que a 2.ª temporada vai começar a mostrar o lado mau e arriscado. Acho que a 1.ª temporada foi mais cómica, calma e mais para jovens adultos. A 2.ª temporada vai ter mais ação e mais pessoas envolvidas.

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Max, [sendo inspirada numa história real] tinhas informação sobre a personagem que estás a representar e sobre a pessoa real em quem esta história é baseada? Fez parte da tua preparação para o papel?

Max: Nem por isso. Tinha medo de me deixar influenciar demasiado pela pessoa real e queria encontrar a minha própria personagem como Moritz e não ser influenciado pelo verdadeiro Maximillian S. Não li assim muito sobre ele nem falei com ele.
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Lenny, a personagem de Danilo Kember, usa uma cadeira de rodas durante a série. Isto teve algum impacto na forma como as cenas foram gravadas, tinham que manter certos ângulos em mente para funcionar?

Max: É louco, mas eu quase me esqueço que ele está a usar uma cadeira de rodas quando estamos a gravar e, mesmo agora, pensando em algumas interações que já tive no passado, muitas pessoas diziam que era muito fixe uma das personagens principais usar uma cadeira de rodas e eu pensava ‘Ah pois é!’, porque estava sempre a esquecer-me que ele estava na cadeira de rodas. Funcionou muito bem com vários ângulos de câmara, mas não estava a ser mais difícil por causa da cadeira de rodas. Seria o mesmo se ele estivesse de pé.
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Uma das nossas colaboradoras é tradutora para a Netflix e já viu a 2.ª temporada. Portanto, sem spoilers, sabemos que tiveste de rapar o cabelo e também sabemos, por outros filmes e séries que fizeste, que adoras fazer personagens muito diferentes. Foi uma decisão difícil, a de rapar o cabelo para este papel?

Max: Acho que foi uma oportunidade muito interessante, mesmo no contexto de como o fizemos. É sempre um grande cliché, a personagem principal rapar o cabelo porque se está a tornar má ou diferente ou algo assim. E brincámos com este cliché na 2.ª temporada, é uma sequência muito curta e foi mais uma piada do que um desenvolvimento sério. Mas é muito bom que na 2.ª temporada tenha feito imensa coisa diferente com a minha personagem. É uma série muito fixe para mim enquanto ator.
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Moritz, durante a 1.ª temporada, luta entre o amor, a amizade com Lenny e o negócio. Pelo que já nos contaste até agora, podemos concluir que na 2.ª temporada o negócio vai provavelmente eclipsar os outros dois. De qualquer forma, na 1.ª temporada, o que achas que pesa mais na sua vida? Amor, negócio ou amizade?

Max: Definitivamente o negócio. Acho que ele gostaria que fosse um pouco mais sobre a amizade e amor e durante a 2.ª temporada reconhece que nem sempre é bom pensar apenas no negócio. Ele tenta o equilíbrio entre o seu trabalho e vida no primeiro episódio da 2.ª temporada, mas rapidamente decide ir a fundo no negócio e, em consequência, o seu amor e amizade sofrem muito.
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Lena, esta divisão interna entre o amor, os amigos e o negócio vai continuar presente na 2.ª temporada?

Lena: Sim, acho que esse triângulo está no centro de tudo, não apenas de Lisa e de Mo, mas também das outras personagens, porque, como disseste, é muito difícil balançar a vida profissional e o amor. É algo que definitivamente controla a 2.ª temporada e o que vem aí. É sempre em torno disso.
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HTSDOF é a segunda série alemã da Netflix a tornar-se conhecida mundialmente. Portanto, parabéns, pela parte que vos toca. Estavam à espera do sucesso enorme da série, especialmente na Alemanha? Como é que isto impactou a vossa vida? Como estão a lidar com a visibilidade?

Max: Se eu achava que ia ser um sucesso? Oh não, não esperava nada disso! Pensei que ia ser uma série engraçada e fofa, mas não esperava este nível de sucesso. Muitas pessoas reconhecem-me na rua e isso nunca me passou pela cabeça enquanto gravava. Mesmo quando saiu achei que apenas algumas pessoas iriam ver na Alemanha, ou mesmo apenas em Hamburgo, a minha cidade de origem. Agora, até temos espectadores na América do Sul, é de loucos!

Lena: É muito fixe, normalmente algo que fazemos na Alemanha não tem maneira de ser visto noutro lado, porque nem tudo é fácil e na maior parte das vezes não há traduções e apenas está disponível com legendas. [O facto de HTSDOF] estar disponível em 180 países é espetacular. Recebemos feedback incrível e as pessoas que veem contribuem para podermos fazer mais temporadas. Por isso, da minha parte, obrigado a todos os que viram e fazem parte da jornada.

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Para finalizar, Max, sabemos que és um grande fã de outra produção televisiva alemã da Netflix: Dark. Portanto, como curiosidade, queríamos saber se ficaste satisfeito com o final da série e a forma como a 3.ª temporada concluiu a história?  

Max: Infelizmente, ainda não cheguei ao final. Estou a meio da 3.ª temporada, mas não consegui ver tudo, por isso não posso dizer nada sobre isso. Mas até agora adoro, adoro as personagens, adoro como criaram o mundo de Eva e estou muito ansioso pelo final, mas preciso do meu tempo. Estamos neste momento a fazer a promoção à 2.ª temporada [de HTSDOF], mas quando isto acabar, quando a 2.ª temporada estrear amanhã [21 de julho], vou definitivamente acabar Dark, portanto lamento mas ainda não consigo responder a isso.

Raul Araújo