Depois de uma conferência de imprensa onde o Séries da TV questionou o ator com bastante regularidade podiam pensar, tal como o Lennie pensou, que já não haveriam muitas questões novas a fazer. Mas vamos dizer-vos tal como lhe dissemos a ele: “temos perguntas para dar e vender!”

Com a sua típica boa disposição e descontração, Lennie foi simpático em nos salientar alguns aspetos importantes da sua presença em The Walking Dead, bem como adorou o presente que lhe oferecemos: uma t-shirt alusiva à presença de Negan na série! Aqui fica o resultado:

Como descreves a experiência de trabalhar com um tigre imaginário? Foi estranho?

Um dos melhores aspetos de trabalhar com o Khary [Payton, que interpreta Ezekiel] é que ele faz parecer algo absurdo em algo credível. Ele tinha uma corrente que às vezes estava presa a alguma coisa, outras vezes a nada e ainda outras em que estava uma pessoa com uma cabeça de tigre e que fazia os movimentos. Foi uma experiência surreal! Há uma cena em particular onde o Victor, que é o responsável pelos efeitos especiais, pega numa bola de ténis e diz: “ora bem, gente, isto é a cabeça do tigre e vocês têm de estar a olhar para ela” e há outros momentos em que o Victor faz-se passar literalmente pelo tigre e põe-se de quatro e imita o animal. Imaginem o que é estarmos a fazer uma série sobre o fim do mundo e está literalmente um indivíduo à vossa frente com uma cabeça de tigre. É genial!”

Como foi contracenar com o Khary?

“Ele é fantástico! Quando o Khary foi chamado para ser o Rei Ezekiel, toda a gente falava do Negan. Era Negan para aqui, Negan para acolá e eu afirmo com toda a convicção que interpretar Ezekiel é muito mais difícil do que interpretar o Negan por causa da teatralidade da personagem. Temos aqui um Rei de um Reino, onde as pessoas lhe chamam “sua majestade” e o qual fala numa linguagem mais elaborada e ainda tem um tigre! E ele tem que fazer isto tudo e ainda ser um homem normal. Encontrar um ator que consiga fazer tudo isto é muito difícil. Muito porque ele é um dos “bons”, se ele fosse um dos vilões com um tigre seria muito mais fácil, porque o Negan tem toda a liberdade de ser o que ele quer, de qualquer forma que entende. Por isso é que o Jeffrey [Dean Morgan, ator que representa Negan] está a divertir-se imenso e o Khary tem de arcar com uma responsabilidade diferente.

Voltando às origens da série. O que te atraiu a entrar em The Walking Dead?

“Na verdade, tudo. Adorei a personagem e o seu destino. Estava a fazer outra série para a AMC, The Prisoner quando recebi uma chamada em que me disseram que tinham encontrado um papel perfeito para mim. Na altura só havia o piloto, nada era garantido, e fico feliz por o Frank [Darabont, criador da versão televisiva] me ter aceite.”

Tenho uma teoria que penso que é interessante sobre os personagens de Rick e Morgan. O Morgan parece-me ser uma espécie de reflexo do próprio Rick. Voltando à 1.ª temporada temos Rick com o seu filho e Morgan também com o seu. Dois pais a lutar pela sua vida, a proteger o que resta das suas famílias e, mais tarde, Morgan perde o seu filho e o Rick perde a Lori. Ambos estão destroçados, completamente desorientados e, agora, os dois têm uma jornada pela frente. Há uma espécie de espelho entre estas duas personagens que se refletem mutuamente. Estou enganado?

“Sem dúvida! Costumamos conversar sobre isso com frequência. Quando o Morgan regressou como regular, quanto mais próximos estavam, mais depressa as duas personagens se completavam. O Rick era tão importante para o Morgan como o Morgan era muito importante para o Rick. Quando o Morgan regressou na 3.ª temporada, a intenção era precisamente que ele surgisse como um presságio para Rick. Um aviso que se traduz como: “se continuares por este caminho vais acabar exatamente como ele [Morgan]. E tu não queres acabar como ele. Não é por coincidência que eles são semelhantes. Basicamente eles fazem sombra um ao outro.”

Qual é a tua opinião sobre o grande cliffhanger da 6.ª temporada? Ele chateou algumas pessoas…

“Sim, estou-me nas tintas para isso! O nosso trabalho é fazer uma série de televisão com base numa banda desenhada, mas não é o nosso trabalho copiar a banda desenhada para o ecrã. Vamos imaginar que estamos a criar uma peça de arte e se essa peça tem o objetivo de ser provocadora e intensa, não vamos tentar mudá-la. Da mesma forma que vos fazemos rir, da mesma forma que vos fazemos chorar, da mesma forma que vos assustamos e vos deixamos a pensar, às vezes vamos chatear-vos! Tudo isto é válido e se o cliffhanger vos chateou significa que conseguimos brincar com as vossas emoções. Não estamos aqui para agradar a todos, mas o objetivo é precisamente esse: mexer com vocês. Toda a televisão é manipuladora, mas não considero que fomos demasiado exagerados com isso.”

Acabou por ser imprevisível o que, por um lado, é algo bastante importante.

“Exatamente! Acho que o primeiro episódio da 7.ª temporada justificou bem a necessidade do cliffhanger. Se tivéssemos dado as informações todas, tudo estaria perdido.”

Achas que o Negan vai criar ainda mais caos à medida que a história fica cada vez mais densa em torno dele?

“O Negan vai fazer exatamente o que ele faz. Ele vai abanar tudo, vai desafiar tudo e todos. É uma personagem extraordinária e nunca conseguimos saber ao certo o que ele vai fazer. O que eu acho é que ele entra literalmente “a matar” na série e reduz o Rick a cacos. E ficamos a pensar, o que raio vai ele fazer a seguir? O Jeffrey é brilhante em conseguir precisamente isto. Sim, vão ter de esperar para ver o que vai acontecer a seguir.”

Tenho outra teoria interessante sobre o teu personagem. Penso que o Morgan se está a integrar tão bem no The Kingdom que penso que irá permanecer lá para sempre. Acho que ele está seriamente a pensar em transitar da Team Rick para a Team Ezekiel. É possível?

“Ahahah! Provavelmente Team Shiva! [RISOS] Sim, quero dizer, é possível. Mas não sei….”

Não sabes ou não podes dizer? [RISOS]

“Obviamente que estou ao corrente de algo, mas não posso, de facto, comentar a situação.”

Pronto, não vamos puxar mais por ti. Acho o Morgan uma personagem interessante precisamente porque mudou o seu código moral várias vezes durante a série. Como foi trabalhar com o John Carroll Lynch para conseguir isso?

“O John foi brutal! O que muitos não conseguem apreciar nesse episódio é que o John teve imenso trabalho com essa personagem que só aparece num único episódio. Ele é o único que praticamente teve diálogo. Ele teve que aprender tudo em três dias: as suas falas, fazer queijo e treinar com o bastão! Ele é mesmo genial. É um ator fenomenal.”

Muito obrigado Lennie, agradecemos imenso esta entrevista. E vamos vendo-te na televisão!

Nota: O Lennie foi inquestionavelmente uma celebridade magnífica que deixou todos à vontade e ainda se despediu de todos os jornalistas que o entrevistaram. É um senhor com um coração de ouro e que interage imenso com os fãs e facilmente conquista qualquer um.

.Jorge Lestre

[Nota: Decidimos traduzir esta entrevista na 2.ª pessoa do singular, com um tratamento por ‘tu’, dado o à-vontade com que Lennie James nos deixou. Sentimos que se fosse em português, teria sido assim, apesar de no inglês o ‘you’ não ter propriamente uma versão formal e informal.]

Vê ainda o artigo sobre o painel com o ator, aqui.