Lisboa Azul, uma nova produção portuguesa, chegou à RTP2 dia 24 de outubro. A minissérie contará com oito episódios de cerca de 20 minutos cada, sendo exibidos às quartas-feiras, às 00h00. A premissa foca-se em Camila, personagem interpretada pela autora da série, Luísa Fidalgo, e no seu conflito interior. Pautada por um ritmo lento, a história vai-nos desvendando, ao longo de um dia, os cantos e recantos da vida desta rapariga e, por consequência, daqueles que lhe são próximos. Com um toque de ficção científica, cenas com animação em 2D e um elenco de renome e internacional, Lisboa Azul promete levar-nos numa viagem pela mente das personagens que a compõem.

O Séries da TV teve a oportunidade de conversar com a realizadora da série, Joana Bastos Rodrigues, assim como com Luísa Fidalgo e Lia Carvalho, ainda que em momentos distintos, devido a conflitos de agenda. Desta forma, segue-se uma primeira entrevista com a realizadora, em formato escrito, sobre o processo de construção de Lisboa Azul e como foi transpor o argumento do papel para o ecrã.

 

Lisboa Azul é uma série diferente daquilo que se costuma ver e até fazer por cá. Porquê esta estética, como surgiu a ideia e como passaste isso para o ecrã?

Tanto eu como a Luísa temos um background relacionado com os Estados Unidos da América. Ela esteve lá a estudar como atriz e eu estive a fazer vários projetos de cinema, fiz um estágio, depois a minha tese de mestrado tinha a ver com o cinema nativo americano, ou seja, sempre tivemos esta perspetiva global. Entretanto, a Luísa apresentou-me o argumento. À partida tem-se noção que há um estilo. Como houve uma disponibilidade para pegar naquilo, tentar perceber as intenções das personagens, a coisa acabou por fazer algum sentido. A Luísa gosta imenso de Twin Peaks e eu gosto muito do David Lynch, conhecia mais a parte dele de cinema, nem estava muito a par da série, mas gosto muito do trabalho que ele faz, especialmente com o som. Tem de se ter alguma noção da natureza do projeto, e quando se tem um baixo orçamento tem de se ser criativo. Não se pode falar de estilo sem se ter em conta este contexto. Enquanto realizadora o meu lema é que faço muito com pouco, também por causa das circunstâncias. Tínhamos de ser muito práticos, tínhamos pouquíssimos dias de filmagem para a quantidade de cenas. Também tive muito tempo para pensar nisto tudo. Nós temos o projeto desde 2015 nas nossas mãos; acaba por se ter muito tempo para pensar o que é bom. A parte da rodagem é só o culminar de todo o processo que se teve com as personagens. Eu não tinha medo que isto fosse uma coisa lenta, era o que tinha de ser. Para mim a Camila é uma personagem que tem o tempo dela, muito específico, e os primeiros episódios são para mostrar esse lado dela. Como a série é toda num dia e só tem 8 episódios, se se começasse logo a partir tudo não havia tempo para perceber quem é aquela rapariga.

 

Por que optaste pela lentidão inicial da narrativa?

Como foi determinado acabou por ser cativante. Se fosse uma coisa simplesmente lenta e mole as pessoas não ficavam agarradas. Mas como se percebe que é deliberado, foi objetivamente feito assim, tem-se curiosidade. O mundo daquela rapariga é uma espécie de marasmo interior. Ela está presa nela própria. O silêncio teve de ser construído, porque se se for a ver é tudo a falar, há muita coisa a acontecer, vai-se começar cada vez mais a adensar e tem de haver este contraste para se conseguir que as pessoas em tão pouco tempo se identifiquem com a personagem. Como realizadora tive de criar uma ideia de contraste para haver identificação. Se for tudo igual não se percebe quem é quem, o porquê.

 

Qual é o significado das cenas ilustradas?

A Camila no fundo é uma rapariga com poucas aptidões sociais que quer ser pintora. Ela sonha ser pintora, mas não expressa muitas vezes isto. Ela própria nem tem confiança suficiente para exprimir isto verbalmente. Consegue-se perceber que há uma ligação entre as animações e esta vontade dela. Ela vai para um mundo onde é feliz e faz o que gosta e as coisas são lindas e coloridas. O próprio estilo da animação tem a ver com a ideia de rascunho, aguarela, desenho, esboço, que tem a ver com o que ela gostaria de ser ou fazer na vida. Foi por isso que também foi escolhida essa técnica.

 

Como chegaram à ideia daqueles peixes mecânicos e como os fizeram? São efeitos especiais?

Havia a ideia de tornar aquilo um pouco fascinante: robôs mexerem-se quase como peixes reais. Haver uma coisa um bocadinho artesanal que está ligado a este mundo dela da pintura e do desenho. Eles existem, mas foram colocados em pós-produção, ou seja, nós filmámos algumas coisas sem os peixes e outras com, dependia da situação. Não podíamos fazer de raiz um peixe, isso já requeria outro orçamento que não tínhamos. Acabou por ser muito curioso, porque há uma empresa portuguesa que criou um peixe robótico com uma empresa asiática. Falámos com eles e ficaram super contentes por pormos os peixes na série. A coisa também se definiu esteticamente um bocado a partir do peixe que eles tinham.

 

Há uma cena de nudez de José Leite e Lia Carvalho. Em produções portuguesas não é muito comum.

Nós tivemos muita liberdade e para mim isso também é uma opção de realização. Eu se é para fazer é para fazer, não vou fazer cenas de sexo só para mostrar. A cena de sexo entre os dois no terceiro episódio tem planos na mesma cena super explícitos e planos em que só se vê um braço, uma mão. Eu delimitei um território. Aquelas personagens para mim têm a ver com uma questão muito primitiva, muito territorial. Eles têm um território que é só deles os dois, que é o território sexual, onde eles se entendem, fora disso a coisa é difícil. A violência no sexo faz sentido para eles. A minha câmara tem um território, eu aviso-os: “o meu território é este, vou estar com a câmara fixa a apontar para aqui e vocês fazem o que quiserem, porque o território é vosso e mostram-me o que querem mostrar”. Fiz este trabalho com os próprios atores acerca das personagens e dei-lhes algumas referências. Expliquei-lhes logo abertamente que eu quando é para fazer as coisas é para fazer. E eles entraram logo nisso. Para além disso eram dois atores que já se conheciam, que se davam bem, o que também é muito importante. Não é que isso vá definir a qualidade do que se filma, mas ajuda.

 

Como chegaram ao ator e à atriz estrangeiros?

O pai na história é um cientista americano. Precisávamos de alguém que falasse inglês nativo. Uma coisa que eu odeio é a imitação dos sotaques. Gosto que a coisa seja mesmo genuína. Portanto, impus uma grande tarefa que era arranjar um ator americano, o que é muito difícil, reduz logo muito as possibilidades. Para mim é super importante esta questão: ter uma pessoa com quem se simpatizasse logo, ter um ar querido. Este homem faz comprimidos para a filha tomar, se fosse um gajo com uma cara um bocado mais marcada, rapidamente era um gajo qualquer que estava a drogar a filha. E eu não queria que passasse essa ideia. O Mark é uma pessoa que tem uma experiência humana absolutamente extraordinária [fundador da Missão Nariz Vermelho]. Ele todos os dias lida com miúdos que podem morrer e isso acaba por se notar nas pessoas. A Erika foi uma feliz coincidência, porque nós estávamos à procura de uma pessoa que não parecesse nem um homem nem uma mulher, que fosse andrógina, que o sexo não fosse minimamente importante quando se olhasse para ela. A Luísa tem um amigo que sabia dessa procura e que viu um filme na Netflix e disse “Olha aquela atriz do filme é que é”. Fomos pesquisar e vimos que ela era uma top model mundial andrógina que faz capas da Vogue Paris. A nossa produtora mandou e-mail, falou com montes de agentes, até que chegou a ela e ela achou curioso nós lembrarmo-nos dela e pediu para falar connosco por Skype. Estivemos uma hora, eu a convencê-la, já tínhamos umas imagens das animações (ela ia ser animada) e ela adorou aquilo. Traduzimos o argumento para inglês, mandamos-lhe e ela veio uma semana. Dissemos-lhe “Olha, isto é mesmo baixíssimo orçamento” e ela “Who cares”. Gostou do projeto. É daquelas coisas que acontecem uma vez na vida. Foi uma coisa fixe.

 

Em relação à banda sonora, foi o teu irmão quem produziu a banda sonora e a sonoplastia de Lisboa Azul. Como surgiu este convite e qual é a importância do som e da música na série?

Para mim a música e o trabalho sonoro são absolutamente fulcrais, tanto que o que eu acho super interessante no David Lynch e no Twin Peaks é a utilização que ele faz do som. O João é meu irmão, é músico, tem o projeto dele independente, uma coisa de hip hop, mas temos uma capacidade de comunicação muito forte. Eu digo-lhe qualquer coisa do género “João, preciso duma música que seja tipo aquele belíssimo decadente, tipo água fresca de manhã e o sol” e ele sabe o que estou a dizer. Nós temos o mesmo tipo de funcionamento, eu se calhar mais na imagem e ele no som, para além de ele ser uma pessoa que também se entrega muito às coisas. Nós dedicámos muitas horas os dois a falar sobre isto tudo, ele a tentar compreender as personagens, a tentar acompanhar o ritmo da montagem, porque às vezes para fazer certos cortes precisava de ter já uma ideia da música. Vai-se percebendo que a música marca muito a forma de estar de cada personagem. 

 

Quais são as expectativas para Lisboa Azul? Qual tem sido o feedback do público?

Dei tanto nesta série que neste momento sinto-me um bocado já a olhar de fora. Para mim ficou tudo ali, tudo o que eu era ficou ali! Sou a fénix renascida! [Risos] As pessoas têm-me dito que gostam, mas eu não consigo na verdade sentir nada. Fico mesmo feliz por as pessoas gostarem, mas não é coisa que me incomode se alguém não gostar. É o que é. Toda a gente é sensível à intensidade que aquilo tem, pode não ser o género de alguém, mas não consegue ficar indiferente. Para mim isso é o mais importante. As pessoas têm gostado. Acho incrível, porque estava à espera de coisas muito piores, só porque não era um objeto muito normal. As pessoas vêm do ambiente de trabalho, sentam-se no sofá e às vezes querem ver coisas fluídas. Aquilo flui, mas é de uma forma que nos obriga a fazer um bocadinho de trabalho. O meu receio era esse. Em relação às expectativas, eu penso sempre worldwide. Para mim não há fronteiras. Para mim a expectativa é que isto chegue a todo o lado que pode chegar e nós já temos imensos fãs da Erika, que ela é um símbolo a nível mundial, que estão na Coreia, na Espanha, em todo o lado a ver a série, em real time na RTP Play, sem legendas, o que é extraordinário. Sinto que é o maior elogio que alguém pode fazer.

 

Abaixo podes ver a entrevista realizada às atrizes Luísa Fidalgo e Lia Carvalho. Devido ao facto de a conversa ter decorrido no café Fábrica Coffee Roasters, em Lisboa, existe algum barulho de fundo característico destes estabelecimentos.