Classificação

8
Interpretação
9
Argumento
10
Realização
9
Banda Sonora

A segunda série alemã original Netflix adivinha-se um sucesso tão grande como Dark.

A narrativa de Dogs of Berlin irá desenvolver-se em volta do homicídio de um jogador de futebol de origem turca famoso a nível mundial, que joga pela seleção alemã, Orkan Erdem (por outras palavras, um Cristiano Ronaldo alemão, que também é mencionado no episódio). A investigação do caso ficará a cargo de dois polícias com personalidades muito diferentes, que terão de pôr as divergências de parte para conseguirem resolver o caso. Este homicídio será o ponto de partida para explorar o submundo de Berlim e todas as atividades ilegais que nele ocorrem.

Começo por dizer que sou uma apaixonada pela Alemanha e, quando soube que a Netflix ia desenvolver um novo original alemão, fiquei muito entusiasmada. A série conta com vários nomes conhecidos da televisão e do cinema de expressão alemã, dos quais destaco Fahri Yardim, que interpreta Erol Birkan, um dos polícias que irá chefiar o caso do homicídio já referido. Yardim é um alemão de ascendência turca que vingou no mundo da representação na Alemanha. Apesar de não ser um ator “especializado” em comédia, penso que todos ou quase todos os filmes que vi com ele foram desse género, por isso estava (e estou) com muitas expectativas para o ver num papel “mais sério”. Poderão recordar-se do outro protagonista da série, Felix Kramer (Kurt Grimmer), que entrou na série Dark, onde interpretou o papel de Tronte Nielsen do ano 1986, em três episódios.

No início do episódio, dão-nos uma visão de uma Berlim envolta em caos, mas o episódio passa-se sete dias antes destes acontecimentos. A cena inicial após este flashforward dá-nos logo uma pista para sabermos em que zona de Berlim nos encontramos: os prédios altos sem grandes ornamentos são característicos dos bairros mais pobres e dos subúrbios da cidade. Ao contrário de Portugal, em que as zonas metropolitanas das cidades estão cheias de prédios deste género e é comum servirem de habitação para todo o tipo de famílias, na Alemanha,este género de edifícios ainda é característico de uma classe inferior e considerado “feio” aos olhos dos alemães, preferindo eles habitações mais tradicionais e pequenas. Dou também destaque ao movimento da câmara nesta cena. Gostei bastante da escolha do realizador, de ter optado por começar por um plano mais geral e ir, ao poucos, aproximando a imagem da janela da casa de Sabine até termos uma visão do que está a acontecer na divisão (mais uma característica das produção alemã: sem qualquer pudor de mostrar os atores como vieram ao mundo).

Neste episódio, tivemos a apresentação de várias personagens e do ambiente em que a narração se vai desenvolver. Ficámos a perceber que há personagens que escondem segredos, como é o caso de Kurt Grimmer, que, apesar de ser polícia, parece ter vários segredos à sua volta. Penso que terá capacidade para ser uma personagem interessante, se bem explorado este seu lado.

Fiquei apaixonada pela personagem da Bine (Anna Maria Mühe). É o estereótipo de uma mãe que vive na miséria e cujos filhos são muitas vezes deixados à sua própria mercê. Qual será a história por trás? Estou muito curiosa por saber mais sobre a personagem. A cena na casa de apostas está cinco estrelas.

A realização e o argumento estavam muito bons. Um episódio bem desenvolvido, não desvendando logo tudo no início, deixando-nos com vontade de saber o que irá acontecer nos próximos capítulos. Não sei se será uma característica do realizador, Christian Alvart, pois não acompanho o seu trabalho, mas gostei muito das escolhas de realização feitas por ele: o plano inicial de aproximação de que já tinha falado, o mesmo género de plano quando Fucht é acordado pelo telemóvel, a cena em que Kurt está a falar com os dois agentes da polícia (Petrovich e Wachtmeister) e a câmara vai rondando a volta deles… Este movimento de câmara dá-nos a sensação de ritmo e tensão. Excelente escolha. Não tenho nada a apontar à realização. Penso que o realizador fez um trabalho excelente. Os cenários estão fantásticos, conseguiram captar a essência de Berlim e do submundo da cidade e passá-la para vídeo. A fotografia está de acordo com o ambiente, a linguagem utilizada está adequadíssima a cada situação e, quanto à banda sonora, nada a apontar.

Achei muito interessante a escolha do cartaz da seleção e de uma frase que está no fundo do mesmo, mas que não foi traduzida nas legendas em português: “Deutschland ist bunt. Nein zu Rassismus!” (A Alemanha é de muitas cores. Não ao racismo). Por outro lado, temos a utilização da palavra kanake, que é um termo pejorativo que os alemães utilizam para falar dos imigrantes do sul, principalmente dos turcos, mas que alguns turcos já utilizam com orgulho e eles próprios se autointitulam kanake. Espero que nos próximos episódios vejamos esta situação do racismo desenvolvida. Espero que a morte de um jogador turco e um polícia de ascendência turca envolvido na investigação, o Erol, levem a uma análise mais profunda à comunidade turca na Alemanha, um assunto que está sempre na ordem do dia. Os turcos são a maior comunidade estrangeira do país e sempre houve problemas na sua integração na sociedade, muitas vezes por vontade dos mesmos, pois não se querem integrar numa cultura que defende valores diferentes da sua.

Uma das últimas cenas, em que Kurt está no carro com Petrovich, foi uma das minhas favoritas. É um monólogo existencial proferido por Kurt em relação à condição humana: quem somos? o que estamos cá a fazer? temos realmente livre-arbítrio? Esta é uma questão que me interessa bastante, por isso achei interessante a série abordá-la, e talvez fiquemos mais esclarecidos quando terminarmos de vê-la.

Em todo o episódio, tenho de dizer que não houve nada a apontar, apenas houve uma cena pouco realística. A cena em que que Kurt quase atropela o cão é um irrealista. Ele vira a cara e ainda nem tem olhado bem para a frente e já está com cara de aflito e a travar o carro… Se o ator tivesse ficado nem que fosse um segundo a olhar para a frente teria feito toda a diferença.

Em suma, quando num episódio de uma hora só conseguimos arranjar um pormenor mínimo para melhorar, deverá querer dizer que a série tem tudo para ser um sucesso. Estou com grandes expectativas para os próximos episódios e espero que a série continue com o nível de qualidade elevado que demonstrou neste V.I.P. Deem uma espreitadela e depois digam-me o que acharam!

Cláudia Bilé