Classificação

10
Interpretação
6.5
Argumento
8
Realização
7.5
Banda Sonora

Temporada: 5

Número de Episódios: 3

[Contém spoilers!]

Depois do filme interativo Bandersnatch, que estreou no fim do ano passado, a nossa antologia distópica favorita volta com a sua quinta temporada. Desta vez com três episódios: Striking VipersSmithereensRachel, Jack and Ashley Too.

Sinto-me obrigada a começar esta review por confessar a minha desilusão com Black Mirror. Sim, continua a ser uma série com qualidade, principalmente a nível de representação e de cinematografia, mas o que distinguia a série era o horror dos desfechos que aconteciam devido a tecnologias que ainda não existem, mas estão muito próximas. Nesta temporada o foco está nas tecnologias que já existem (ou quase), mostrando casos de ‘pior cenário’. Acho que a ideia foi chocar a audiência pela proximidade tão grande entre os eventos da série e a nossa realidade atual, mas não é a mesma coisa. Os episódios já não me deixam de coração destroçado, com a boca aberta, no momento em que o ecrã preto dos créditos aparece. Não fico a questionar a minha vida, a humanidade ou o impacto da tecnologia. Eu antes nem conseguia ver os episódios seguidos porque eram demasiado para digerir e nesta temporada vi tudo de uma vez, mas de uma forma muito mais apática.

Ok, agora que já desabafei, vamos às análises dos episódios, que achei por bem dividir nesta review.

Striking Vipers

Neste primeiro episódio conhecemos dois colegas universitários que decidem encontrar-se anos mais tarde, já adultos e com família. Para recordar os tempos antigos voltam a jogar um jogo de luta que costumavam jogar juntos na altura em que eram colegas de casa, na faculdade. Este jogo, na atualidade, foi melhorado e joga-se agora através de realidade virtual. Só que a realidade virtual vem também com a particularidade de os utilizadores conseguirem sentir as mesmas sensações físicas que as personagens do jogo estão a sentir. Isto leva a que os dois, ou como eles preferem pensar, as suas personagens, comecem a sentir-se atraídos um pelo outro.

O episódio questiona em que situações é que a realidade virtual passa a ser a verdadeira realidade? Se a relação entre os dois, mesmo não estando eles fisicamente presentes, envolve sensações físicas e emocionais reais, não pode ser considerada uma relação? E neste caso, não estarão os dois a trair as suas relações no “mundo real”? Além de explorarem a linha entre o mundo virtual e o mundo “real”, o episódio explora também a descoberta da orientação sexual mais tarde na vida e problemas relacionados com a masculinidade. As duas personagens, que ao vivo mal se abraçam, no espaço virtual conseguem libertar-se e conhecer emoções que tinham fechado no seu mundo. Eles acabam por ficar viciados nestas novas sensações, que é um tema também muito presente no episódio: o vídeo jogo como uma forma de escapar à monotonia da vida e experimentar novos estímulos.

Estou um pouco reticente em relação ao final do episódio e penso que está deliberadamente aberto a várias interpretações. Por um lado, foi um bom compromisso de forma a manter as duas realidades e uma situação em que toda a gente fica feliz. Por outro, pareceu-me um pouco falta de coragem de assumir um dos “lados” e um pouco injusto para eles e para as namoradas. Fica também a dúvida se realmente eles não sentiam nada um pelo outro fora do jogo, ou se tinham demasiado receio do que isso implicaria e estavam a guardar essas emoções.

Smithereens

Este segundo episódio foi o mais semelhante com a atualidade, lidando apenas com as consequências do uso das redes sociais levadas ao extremo. Neste episódio seguimos um condutor de táxis/Uber, que está obcecado em transportar alguém da grande multinacional de redes sociais Smithereens e só aceita viagens cujo ponto de partida seja na sede da empresa. O condutor Chris (Andrew Scott, de Fleabag e Sherlock) acaba por fazer refém Jaden, um estagiário da empresa, e só aceita libertá-lo quando conseguir falar com o CEO da Smithereens.

A única parte que eu gostei do episódio, com exceção da representação dos atores – principalmente de Andrew Scott, foi a tensão que se estabeleceu entre o motorista e a polícia que o rodeava e mais tarde, na chamada entre Chris e o CEO da empresa. Com o seu estado instável, estava sempre à espera que o pior acontecesse: que se se matasse a ele, ao Jaden ou a toda a força policial que estava à volta. Quanto ao tema da tecnologia e das redes sociais serem prejudiciais, principalmente conduzir e navegar na rede… isso não está mais que visto? Achei um tema tão banal, que não percebi muito bem o propósito do episódio.

Gostei mais do sub-plot da mulher que Chris conhece no início do episódio e que está desesperadamente a tentar entrar na rede social (basicamente o Facebook) da filha que se suicidou recentemente, numa tentativa de descobrir as razões da filha por trás deste ato. É incrível quando nos apercebemos que todas as grandes empresas possuem acesso completo a todos os nossos dados e estes nem sequer estão encriptados! A empresa acaba por telefonar à mulher e diz-lhe claramente a password da filha, sem qualquer dificuldade, nem encriptação. É sem dúvida um final agridoce. Quanto ao final da narrativa principal, achei que foi demasiado previsível e não fez jus à tensão criada durante todo o episódio.

Rachel, Jack and Ashley Too

O último episódio da temporada é sobre Ashley (Miley Cyrus), uma pop star conhecida internacionalmente que copia a sua consciência para um pequeno robô, estilo Alexa do Google. Este robô, chamado Ashley Too, promete ser a melhor amiga ideal para milhares de adolescentes que idolatram a Ashley e sonham ser suas amigas. Rachel (Angourie Rice), que acaba de se mudar para uma nova escola e ainda não conhece ninguém, suplica ao pai que lhe compre uma Ashley Too para o seu 15-º aniversário. A sua relação com o robô, como era de esperar, acaba por se complicar. Paralelamente, temos a história da verdadeira Ashley que está farta de viver à imagem do ídolo adolescente perfeito e quer sair da bolha e criar o seu próprio conteúdo, mais adulto. Esta história é demasiado parecida com a verdadeira história de Miley quando quebra relações com a sua personalidade da Disney.

Achei que este ia ser dos melhores episódios porque adoro inteligência artificial e os meus episódios de Black Mirror favoritos são os que abordam este tema. Mantive as expectativas até ao ponto em que a irmã de Rachel, Jack, acidentalmente retira o “limitador de cérebro” do robô e este se torna uma versão mais completa, não filtrada do cérebro da verdadeira Ashley. Esta parte foi interessante, mas a partir daqui a narrativa descamba. Acaba por ser uma história acerca de Rachel e Jack salvarem a Ashley e não aprofunda muito a relação entre inteligência artificial e os adolescentes, nem o perigo do limitador. Acaba por ser mais sobre a fama e o controlo que é feito a pop stars, que se transformam literalmente num produto que é manipulado por produtores e pela indústria.

De destacar a representação de Miley, bem como das duas atrizes que representam o papel de irmãs, que foram geniais. Ah e já agora, uma pequena nota, aquela música da Ashley é tão catchy que continuou a tocar na minha cabeça em loop durante um bom tempo!

Melhor Episódio:

Episódio 1 – O episódio que tinha mais potencial era o da Ashley Too, mas para mim o que se destacou mais foi o Striking Vipers. Era o mais parecido com os típicos episódios de Black Mirror: uma tecnologia que ainda não existe mas está muito perto, questões morais entre a realidade e a tecnologia e o vício destes mundos virtuais como uma escapatória do mundo real. Não é dos meus episódios favoritos da série mas dentro da temporada, acho que se destacou.

Personagem de destaque:

Chris Gillhaney – Esta categoria é difícil de aplicar a Black Mirror, mas dentro da temporada, Chris de Smithereens foi, provavelmente, a personagem que mais se destacou. A representação de Andrew Scott foi brilhante, deixou-me sempre na dúvida do seu estado mental e a última parte do episódio destroçou-me.

Ana Oliveira