Se não tiveram a possibilidade de acompanhar a edição desta semana em direto na nossa página do Facebook, têm a oportunidade de ler aqui tudo compilado:

1. Olá, boa noite e bem-vindos a mais uma edição da nossa rubrica “Atores de Primeira à Segunda-Feira”. A nossa escolha de hoje é Jamie Clayton, nascida a 15 de janeiro de 1978. Filha de Howard Clayton, um advogado de defesa, e de Shelley, uma organizadora de eventos, Jamie nasceu em San Diego, na Califórnia, onde também cresceu.

2. Tal como Nomi Marks – o papel de Sense8 que a tornou conhecida do público – e outras das personagens que interpretou, Jamie é trans, mas não gosta de rótulos. “Colocar um rótulo à frente do trabalho de alguém com o seu género ou raça – isso é o oposto de compreender quem a pessoa é. […] É como dizer ‘atriz negra’. Já não se diz isso. A única coisa que devia vir antes de ‘atriz’ é ‘premiada’.” Para Jamie, o importante é gostar dela própria: “se tiveres orgulho em quem és, então as outras pessoas também terão orgulho em ti”. Esta é uma lição que diz ter aprendido bastante nova e que lhe mudou a vida.

3. Apesar de ser famosa pelo seu trabalho como atriz, os planos de Jamie quando tinha 19 anos e se mudou para Nova Iorque passavam por uma carreira como maquilhadora. A fama que agora alcançou ainda demoraria a chegar, mas em 2008, no site do jornal semanal New York Observer, um artigo sobre Jamie, intitulado The Second Most Beautiful Girl in New York, tornou-se conhecido na blogosfera. Jamie recebeu emails de todo o mundo e ganhou alguma visibilidade. Foi na sequência desse artigo que acabou por surgir a oportunidade de ser um dos rostos de TRANSform Me, do canal VH1, em 2010. Clayton, juntamente com Laverne Cox e Nina Poon, viajava pelo país com a missão de ajudar mulheres que tivessem escrito para o programa a pedir ajuda para uma mudança de visual.

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4. Jamie só começou a carreira como atriz à volta dos 30 anos, mas trabalhou também como modelo. No entanto, a representação fica sempre em primeiro lugar e a televisão é para ela uma paixão antiga. “No geral, sou uma grande fã de televisão. Adoro televisão. Adoro filmes. Sempre adorei. É o que faço e adoro-o.”

5. O primeiro trabalho de Jamie como atriz foi em 2011, numa participação de dois episódios em Hung. Protagonizada por Thomas Jane, a série conta a história de Ray, um treinador de basquetebol do liceu que, depois de perder a sua casa num incêndio, toma a decisão de se tornar prostituto. Jamie dá vida a Kyla, a rececionista de uma linha de prevenção de suicídio que recorre aos serviços de Ray. No entanto, acaba por surgir uma ligação entre os dois.

6. No ano seguinte, Jamie junta-se a Mary Lynn Rajskub e a Hank Harris na web-série de três episódios, Dirty Work. A comédia centra-se no trio, que se dedica a limpar cenas de crime durante a noite. Jamie interpreta Michelle, que está a tentar juntar dinheiro para uma cirurgia de mudança de sexo.

7. Segue-se uma participação num episódio da 3.ª temporada da comédia Are We There Yet? e na web-série Hustling, que se centra num ator de filmes para adultos cuja carreira, aos 40 anos, começa a entrar em declínio.

8. Jamie foi também a narradora do audiobook de George, um livro do género young-adult, lançado em 2015 e escrito por Alex Gino, que se identifica como genderqueer. George conta a história de uma criança que as pessoas veem como um menino. No entanto, George sabe que não é um rapaz, mas sim uma rapariga. No entanto, pensa que esse é um segredo que terá de manter para sempre. Então, uma oportunidade aparece quando é anunciado que a escola vai fazer uma representação de Charlotte’s Web (A Teia da Carlota). George quer muito interpretar o papel de Charlotte, mas nem sequer lhe é permitido fazer audições por ser um ‘rapaz’. Com a ajuda da melhor amiga, elabora um plano que lhe permita interpretar Charlotte para que todos saibam, finalmente, quem realmente é: uma rapariga.

9. Em 2016, a atriz torna a fazer participações de um episódio em duas séries: no policial canadiano Motive e na série de animação BoJack Horseman, da Netflix.

10. Jamie estreia-se no cinema num pequeno papel em The Neon Demon ainda em 2016, o mesmo ano em que também entra na websérie Scissr. A trama centra-se num grupo de mulheres, Aviva, Emily, Corey e Niamh, a viver em Brooklyn, Nova Iorque. Através de uma app para o telemóvel, as quatro conhecem-se e rapidamente se apercebem que têm muito mais em comum do que aquilo que poderiam imaginar. Jamie interpreta uma das personagens principais, Niamh, uma aspirante a atriz que é também a responsável pelas entradas no Scissr, o bar gay do bairro.

11. Já este ano, Jamie deu voz a Jien Garson no jogo Mass Effect: Andromeda, lançado em março, o quarto da série Mass Effect e o primeiro a sair desde 2012. O jogo recebeu críticas divergentes, tendo sido aclamado pelas cenas de combate e pelas melhorias em termos visuais, mas criticado pela animação de personagens e problemas técnicos.

12. No entanto, há que recuar a 2015 para nos debruçarmos um pouco sobre aquele que é, de longe, o papel mais importante da carreira de Jamie, o de Nomi Marks em Sense8. As audições foram feitas a nível internacional porque, segundo Jamie, que passou mais de um ano a reunir esforços para ficar com o papel, Lana Wachowski “queria certificar-se de que alguém que se identificasse como trans ficasse com o papel. […] Há muita coisa na série escrita a partir das experiências pessoais da Lana, por isso era importante que encontrasse o ator certo ”.

13. Como o papel de Nomi foi criado por uma mulher trans, Jamie vê nele uma profundidade que falta a muitos. “A coisa mais importante para mim era poder interpretar uma personagem que é trans, mas cuja história não tem nada a ver com o facto de ser trans. A história não se centra na transição, o que acho que é um passo muito importante […].” Mas a essência de Sense8 passa precisamente por marcar a diferença, por dar a conhecer realidades diferentes daquelas a que estamos habituados. “Sinto-me muito contente que todos os que veem [a série] se sintam representados de uma forma como não sentiram antes e não apenas por causa da Nomi, mas por todo o elenco de Sense8. […] Fazer parte disso é uma verdadeira honra”.

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14. Nomi faz parte de um grupo de oito pessoas ligadas pelos seus sentidos e capazes de interagir telepaticamente na vida umas das outras. Juntos, unirão esforços para encontrar uma forma de sobreviver às constantes perseguições de quem os considera uma ameaça. A título de exemplo, Nomi – tal como Jamie – não sabe conduzir, mas com a ajuda de Capheus, um motorista de autocarros do Quénia, conseguiu fugir àqueles que a perseguiam. Enquanto isso, Nomi tem sido uma mais valia para o grupo dadas às suas capacidades como hacker. É precisamente assim que tudo funciona, com cada um dos oito a ajudar os restantes com aquilo que sabe fazer de melhor.

15. No seio do grupo e também na sua relação com a namorada Amanita, Nomi encontrou a aceitação e a compreensão que nunca recebeu na própria família e que, durante muito tempo, a fez recear ser ela própria. Num discurso escrito online antes da Marcha do Orgulho Gay em São Francisco, Nomi traduziu precisamente isso em palavras. “Durante muito tempo, tive medo de ser quem sou porque foi-me ensinado pelos meus pais que há algo de errado em alguém como eu. Algo ofensivo, algo que se deve evitar, talvez até sentir dó. Algo que nunca se poderia amar… Eu tinha medo desta parada porque queria muito fazer parte dela. Por isso, hoje, vou marchar com a parte de mim que em tempos tinha demasiado medo de marchar. E por todas as pessoas que não podem marchar, as pessoas que vivem vidas como eu vivi… Hoje, marcho para lembrar que não sou apenas um eu, mas também um nós. E nós marchamos com Orgulho”.

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16. Sense8 sofreu um cancelamento precoce, após a 2.ª temporada, mas deixou um marco no mundo das séries e, mais importante do que isso, na vida de muitos. Os fãs reuniram esforços nas redes sociais para salvar a série do cancelamento e a verdade é que a Netflix acabou por decidir fazer um final de duas horas para terminar de contar a história dos sensates.

17. Ainda este ano, é possível continuar a acompanhar o trabalho de Jamie, que vai entrar em dois filmes. O primeiro é The Snowman (O Boneco de Neve), inspirado no livro com o mesmo nome do escritor norueguês Jo Nesbø, e com estreia em Portugal a 19 de outubro. O segundo filme é The Chain, ainda sem data de estreia prevista, que se centra num homem que volta à cidade natal para tomar contar do pai doente e descobre que têm a mesma doença neurológica. Assim sendo, decide que quer acabar com a sua vida e entra numa rede de suicídios assistidos cuja única regra é: se queres morrer, tens de matar alguém primeiro.

18. Terminamos a nossa rubrica de hoje com algumas fotos de Jamie com a ‘família’ de Sense8 e deixando mais uma mensagem de Nomi que vale a pena recordar: “A verdadeira violência… a violência que me apercebi que era imperdoável… é a violência que cometemos em relação a nós próprios quando temos demasiado medo de ser quem realmente somos”.

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