No mês passado lançámos uma crónica centrada em figuras históricas, mas o ‘testamento’ já ia longo, por isso sentimos a necessidade de a dividir em duas partes. Assim sendo, aqui ficam mais quatro personalidades cujas vidas fascinantes achamos que dariam boas séries.

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Henrique V – Numa lista que possui várias figuras históricas extremamente interessantes, poucas tiveram uma vida tão repleta como a de Henrique. Sem acrescentar nada de fantasioso, a sua própria história já dava uma bela série, desde a maneira como ascendeu ao poder até ao que fez depois de lá chegar. Relembro que, quando nasceu, Henrique não era um pretendente direto à coroa de Inglaterra, até que o seu pai se revoltou contra o rei na altura. Henrique ajudou desde cedo o seu pai e, inclusive, liderou uma batalha, sendo bem sucedido, quando tinha apenas 16 anos. Quando o seu pai morreu, ascende ao trono de Inglaterra com uma clara ambição, conquistar e juntar França ao seu património. Uns anos depois de conseguir conquistar por batalha a Normandia, acaba por ser coroado herdeiro e regente de França, pondo fim às suas expedições até morrer, devido a uma doença, com 35 anos. Adorava ver uma série que retratasse sem acrescentar muito, mas sem ser apenas um documentário, a vida de Henrique – possivelmente em duas temporadas, uma sobre a ascensão ao trono, desde a revolta do seu pai até ele tomar posse, e outra sobre o que fez enquanto monarca.

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Margot de Valois – Marguerite, conhecida como Margot, era filha de Catarina de Médici e de Henry II. Teve uma vida longa e dura. Com 19 anos a mãe arranjou-lhe um casamento com Henrique III, que viria a tornar-se rei de Navarra, sendo obrigada a deixar desde cedo um jovem amor para trás, sendo que a própria mãe a espancou quando descobriu esse seu caso. O seu casamento também foi pouco comum, uma vez que foi entre uma católica e um protestante e nenhum dos dois se converteu à religião do outro. Um dos factos mais curiosos sobre Margot foi que o seu casamento foi uma farsa planeada pela mãe para supostamente haver uma reconciliação entre protestantes e católicos e, uns dias depois deste casamento, Catarina liderou uma série de ataques que culminaram na morte de muitos líderes protestantes e só não morreram mais porque Margot escondeu alguns nos seus aposentos e recusou deixar alguns assassinos entrar. Margot esteve sempre dividida entre apoiar a família ou o marido e, como mulher inteligente e astuta que era, acabou por jogar um pouco dos dois lados e esteve envolvida em diversos escândalos, desde ser acusada de incesto com o seu irmão, até organizar um golpe de estado e ser expulsa da corte, uma medida inédita. Após o tempo que passou na prisão, acabou por haver uma anulação do seu casamento ao ficar provado que esta era estéril. Outro dos atos inéditos que fez foi ter sido a primeira mulher a escrever as memórias sobre a sua vida. Acho que para Margot havia um potencial muito grande de fazer uma série duradoura e interessante, algo que misturasse a política da altura com a vida extremamente interessante que teve.

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Carolina Beatriz Ângelo: A luta pelo sufrágio feminino em Portugal está inequivocamente ligada a esta mulher, cujo nome muitos desconhecem, mas que deve ser recordado. Foi em 1907 que Carolina Beatriz Ângelo, médica de profissão, especialista em ginecologia, começou a envolver-se em questões cívicas, tendo aderido a movimentos feministas que queriam a implantação da República e tornando-se defensora dos direitos das mulheres. No entanto, esta médica entra na História em 1911, ano em que foi a primeira e única mulher a votar nas eleições para o parlamento da 1.ª República Portuguesa. Carolina aproveitou-se de uma imprecisão na lei que definia que tinham direito a votar os “cidadãos portugueses com mais de 21 anos, que soubessem ler e escrever e fossem chefes de família”. Na altura era subentendido que os chefes de família eram homens, mas não estava lá escrito especificamente e a verdade é que Carolina era uma mulher com formação superior, viúva e com uma filha ao seu encargo, portanto enquadrava-se na definição de chefe de família. Foi com esse fundamento que escreveu à comissão recenseadora para ser incluída na lista de votos e o seu pedido foi recusado ao início. Assim, ela apresentou um recurso em tribunal e a sentença do juiz João Baptista de Castro merece ser lembrada: “Excluir a mulher […] só por ser mulher […] é simplesmente absurdo […] e em oposição com as próprias ideias da democracia e justiça proclamadas pelo Partido Republicano. […] mando que a reclamante seja incluída no recenseamento eleitoral”. No entanto, as leis acabaram por ser mudadas pouco depois para que mais nenhuma mulher pudesse votar, como Carolina conseguira. Esta mulher morreu muito jovem, precisamente no ano em que inscreveu a sua marca na História do nosso país. Seriam precisos mais de 60 anos, depois do 25 de abril de ’74, para deixar de haver restrições no acesso ao voto com base no género. É por isso que não falho uma eleição! Fazer 18 anos – já lá vão quase dez – e poder votar pela primeira vez foi uma sensação muito boa. Obrigada a mulheres e homens que, como Catarina, lutaram para que isso fosse possível.

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Aristides de Sousa Mendes: Conhecido como o Oskar Schindler português, Aristides de Sousa Mendes, que trabalhava como cônsul de Portugal em Bordéus no ano em que a França foi invadida pela Alemanha, ajudou a salvar a vida de milhares de refugiados, sobretudo judeus, durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1939, para evitar procedimentos irregulares que aconteciam em embaixadas portuguesas, foi distribuída a Circular n.º 14 do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que obrigava os serviços consulares a consultar a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE, mais tarde conhecida como PIDE) e o Ministério antes de atribuírem vistos a apátridas, russos e judeus que tivessem sido expulsos dos países de origem. Aristides não obedece a essas regras, concede vistos e falsifica documentos, crime punível com prisão. Com França e inúmeros países da Europa sob o domínio alemão, Portugal era um porto de abrigo provável, também por funcionar como porta de saída de um continente assolado pela guerra. Aristides pode ser o nome mais conhecido desta causa, mas não trabalhou sozinho, contou com a ajuda de outras pessoas que, tal como ele, acreditavam que podiam fazer a diferença num mundo enlouquecido. A desobediência às ordens de Salazar teve repercussões severas e Sousa Mendes acabou por morrer na miséria, em 1954. No entanto, a História não esquece o papel que ele desempenhou a salvar vidas e Israel atribuiu-lhe o título de Justo entre as nações, já nos anos 60. Só anos depois da morte de Salazar é que, aqui em Portugal, lhe é dado o devido mérito. O nosso país pode ter tido uma posição oficial de neutralidade durante a guerra, mas é difícil de acreditar que o nosso regime ditatorial não nutria ‘simpatia’ pela causa fascista italiana e alemã nazi.

Diana Sampaio e Raul Araújo