Amanhã celebra-se o Dia da Mãe e já escrevemos algumas vezes sobre o assunto a louvar algumas das melhores mães do mundo das séries, por isso hoje vamos fazer precisamente o exercício inverso: falar um bocadinho sobre más mães. Sim, porque nem todos os filhos têm sorte com aquilo que lhes calha e estas dez mulheres (umas mais do que outras) são exemplo disso. No entanto, achei que era um pouco indelicado (indelicado parece-me a palavra adequada) escrever sobre o tema no dia dedicado às mães, por isso mantemos a tradição de lançar as crónicas aos sábados.

Adora Sharp Objects

Adora Crellin [Sharp Objects]: O propósito desta crónica é precisamente o de falar de más mães e Adora é uma das piores que aqui figuram. O facto de ter sido ela a responsável pela morte da filha Marian ajuda muito a incluí-la nesta lista, mas há tantas outras razões! Há que mencionar que esta mulher é tão sedenta de atenção e de ser reconhecida como uma mãe devota que fez a filha adoecer para cuidar dela, naquilo que é designado como Síndrome de Münchhausen por procuração. Depois há também todo o abuso emocional que fez Camille sofrer. Agiu sempre como se nada daquilo que ela era fosse o suficiente, na sombra da irmã perfeita que tinha morrido. Adora sente um prazer especial em infernizar a vida da filha mais velha, atribuindo-lhe culpas que não tem, e fazendo-se ela própria da mártir que não é. A dor de Camille é provocada grandemente pela mãe e as suas cicatrizes físicas têm as emocionais como origem. Adora também nunca visitou a filha enquanto esta esteve num hospital psiquiátrico a tratar-se. Depois, com Amma, a filha mais nova, tentou fazer o mesmo que fizera com Marian, matá-la de forma doentia. Tê-lo-ia conseguido se não fosse Camille intervir. Outro dos grandes defeitos desta mulher enquanto mãe é o quanto infantilizava Amma, o quanto queria que fosse a sua menina pequena quando era evidente que ela se estava a tornar uma mulher. Ah, e não consigo esquecer a cena em que Adora força Camille a mostrar o seu corpo mutilado à frente da irmã.

Aleida Orange Is the New Black

Aleida Diaz [Orange Is the New Black]: Aqui temos uma mãe bastante egoísta que relegou muitas vezes em Daya, a filha mais velha, a responsabilidade de cuidar dos irmãos, uma vez que ela estava demasiado preocupada com saídas e homens para assumir o papel de mãe. Aleida não é exatamente má pessoa, mas é uma má mãe que já confessou o quanto adora ser amada pelos filhos. Não haveria nada de errado nisso se estivesse preocupada em mostrar-lhes que também os ama, mas tudo o que parece é que aquele amor lhe faz bem ao ego. São também algumas as vezes em que Aleida troçou dos sonhos da filha mais velha, mas acho que o problema maior da personagem é a sua falta de maturidade e a sua incapacidade de ver os filhos como prioridade, principalmente porque estamos a falar de crianças (excluindo aqui Daya da equação). Acredito que Aleida ama os filhos e que o facto de ter dado um estalo a Daya quando a viu na prisão traduzem o facto de esperar que a filha tivesse feito melhores escolhas na vida do que ela. No entanto, nem todos os tipos de amor são saudáveis e esta mulher tem um longo caminho a percorrer para se tornar uma boa mãe, mas acredito que poderá chegar lá.

Beverly Hofstadter

Beverly Hofstadter [The Big Bang Theory]: Quase que me sentia tentada a considerar Beverly a menos má das mães aqui apresentadas, mas não sei se seria justo. Beverly pode ter dado a Leonard uma infância confortável e uma boa educação em termos escolares, mas neglicenciou emocionalmente o filho. Sempre encarou como culpa de Leonard as suas próprias incapacidades como mãe, mas nenhuma criança deve crescer forçada a ser um reflexo da genialidade dos pais. E apesar de Leonard não precisar de defesa, porque é um tipo às direitas, um bom amigo e um bom namorado, bem como extremamente inteligente, mas também alguém com senso comum e capaz de sentir empatia, a mãe só lhe vê os defeitos. Beverly quereria que Leonard fosse mais como Sheldon, provavelmente, mas cá para mim já havia robôs a mais naquela família. Não consigo deixar de pensar que Mary Cooper teria sido a mãe perfeita para Leonard e que Sheldon teria adorado crescer com os Hofstadter.

carrie mathison

Carrie Mathison [Homeland]: Só a Carrie coube a decisão de ter Franny, mas pergunto-me se terá sido a melhor ideia. Deixar a filha ao cuidado da irmã mais velha foi a forma que Carrie encontrou de poder continuar o seu trabalho num local perigoso do mundo. Como é lógico, não julgo uma mulher por continuar a trabalhar quando tem filhos, mas nos primeiros meses de vida, Carrie acabou por não ser uma mãe para Franny. Pergunto-me se ter a filha não terá sido uma decisão fundamentada pela emoção e algo que ajudava Carrie a manter Brody com ela, de certa forma. Acho que se tratou um pouco disso, o que é extremamente egoísta. Depois, há aquela cena terrível em que Carrie pensa em matar Franny no banho. A sério, que momento terrível! Isso só mostra que ela precisava de séria ajuda psiquiátrica para lidar com o que quer que fosse que a tenha feito ter aquele pensamento, nem que fosse por um segundo e logo a seguir se tenha arrependido. Mais tarde, Carrie acabou por assumir a educação de Franny, que ficou então a viver com ela, e até não parecia estar a sair-se nada mal como mãe, mas a verdade é que houve algumas situações em que não houve atenção ao melhor interesse de Franny. Deixá-la com Quinn quando ele próprio estava seriamente afetado pelos acontecimentos que quase o mataram foi uma atitude extremamente irresponsável. Se bem me lembro, a própria menina confessou ter tido medo. Talvez tenha sido um exagero que os Serviços Sociais tenham tirado Franny à mãe, até porque Carrie percorreu um longo caminho desde a altura em que pensou matar a filha, mas percebo o quanto as coisas pareciam más.

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Cora Mills [Once Upon a Time]: Esta mulher matou o homem por quem a filha estava apaixonada porque os seus planos para Regina passavam por um casamento com alguém rico e poderoso. O estatuto sempre foi mais importante para Cora do que a felicidade da filha e o desgosto pela morte de Daniel foi o que atirou Regina para uma espiral de vingança que a tornaria na Evil Queen. Não seria correto culpabilizar apenas Cora pelo caminho que Regina traçou para si e só ela é responsável pelas vidas que destruiu, mas a mãe ajudou a criar aquele monstro, tirando à filha aquilo que ela mais amava no mundo. Em acontecimentos que só mais tarde na história descobrimos, é sabido também que Cora teve uma filha, antes de Regina, e que abandonou. Embora Zelena não tivesse conhecido a mãe, cresceu a ressentir-se por ter sido abandonada, o que também ajudou a fazer dela uma vilã. De forma mais ou menos indireta, esta mulher marcou as vidas das duas filhas de forma tão negativa que ambas escolheram o caminho do mal. Depois há também o facto de Cora ter apagado as memórias de Zelena e Regina de modo a fazê-las esquecer que, durante a infância, houve um período em que as duas meninas puderam ser irmãs. Negá-las do amor uma da outra foi tão injusto! Cada uma delas cresceu sozinha quando podiam ter-se tido uma à outra. Sei que, antes de morrer, Cora conseguiu redimir-se perante as filhas, mas não deixa de ser uma péssima mãe.

Dorothy jessica-jones

Dorothy Walker [Jessica Jones]: Física e emocionalmente abusiva, a mãe de Trish explorou a fama da filha até à exaustão. Dorothy habituara-se a um certo estilo de vida que Trish passara a poder proporcionar-lhes depois de se ter tornado uma estrela da televisão quando era miúda. No entanto, nunca nada era o suficiente para ela. Viu-se Dorothy a obrigar a filha a vomitar, a chamar-lhe gorda… O facto de ter adotado Jessica também mostra o quanto esta mulher é calculista e só se importa com a imagem que passa para o mundo lá fora, em vez de se preocupar com o bem-estar da família, dentro de quatro paredes. Dorothy nunca quis saber de Jessica, só estava preocupada em arranjar uma maneira de conseguir boa publicidade para ela mesma e para a imagem criada à volta de Patsy.

ellis grey greys anatomy

Ellis Grey [Grey’s Anatomy]: Ellis é outra mulher que foi brilhante e atingiu feitos incríveis na sua vida profissional, mas que falhou redondamente como mãe. O primeiro grande erro foi ter sequer tido uma criança quando isso não era nada do que queria da vida. Ainda por cima, Meredith nasceu de um casamento sem amor, no seio de uma família que nunca poderia resultar. Depois, já divorciada, nunca permitiu que pai e filha tivessem uma relação, mas aí as culpas distribuo-as, porque Thatcher deveria ter lutado por Meredith e nunca o fez. Ellis cortou os pulsos à frente da filha, em pequena, dando-lhe ordens para não pedir ajuda. Que tipo de pessoa é que faz isto? Depois, e apesar de saber que não tinha sido talhada para ser mãe, engravidou uma segunda vez. Caramba, ela era médica, seria de pensar que conhecesse bem os métodos contracetivos e os usasse! Teve Maggie e entregou-a para adoção, sem nunca ter dito nada ao pai da criança. Apesar de tudo, acho que entregar a filha foi a melhor decisão. Não sei se tomada por motivos egoístas ou não, mas foi pelo melhor. No entanto, Richard deveria ter sabido. Ele poderia ter sido um bom pai. Numa altura em que Meredith já é adulta e também ela médica, pudemos ainda assistir à mãe a chamar-lhe “ordinary” e sempre muito mais focada na parte profissional do que na felicidade da filha. Quando estava a morrer, Ellis pode ter-se arrependido de muitas coisas e ter dado algum consolo a Meredith, mas isso não muda aquilo que fez ou que disse, nem apaga todos aqueles anos em que foi uma má mãe.

Fiona Goode American Horror Story

Fiona Goode [American Horror Story: Coven]: A filha era ainda uma adolescente quando Fiona a deixou aos cuidados de Myrtle Snow. Este afastamento físico criou também um afastamento emocional entre as duas, com Cordelia a não querer nada com a mãe e Fiona a não sentir muito para além de desapontamento em relação à filha porque esta não se tornou em nada parecida com ela. Fiona não se mostrou também disposta a sacrificar Cordelia se isso significasse um acordo com Papa Legba? Acho que isso diz tudo!

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Monica Gallagher [Shameless US]: Monica tinha uma dependência grave de drogas, além de ser bipolar e de não tomar a medicação devida para se tratar e é sabido que alguém que não é capaz de cuidar de si mesmo dificilmente poderá tratar de outros, para mais quando se trata de crianças que precisam de ser alimentadas, de rotinas e estabilidade. Tal como Frank, Monica deixou os filhos entregues a eles mesmos e foram os mais velhos a assumir a responsabilidade pelos mais novos. Seis miúdos é certamente um número grande de filhos para qualquer família, mas quando se trata de uma que vive na pobreza tudo se complica ainda mais. Fiona, Lip, Ian, Debbie, Carl e Liam tiveram desde muito cedo de se habituar a viver sem nada, fazendo o que podiam para garantirem que havia comida na mesa e dividindo os afazeres em casa porque não havia nenhum adulto responsável para fazer isso por eles.

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Norma Bates [Bates Motel]: A relação entre Norma e Norman roça (mais do que roça, até!) o incestuosa, há uma vibe indubitavelmente esquisita! Tudo começa quando Norman mata o pai. Legítimo, uma vez que estava só a tentar proteger a mãe. No entanto, em vez de irem à polícia e de invocarem legítima defesa, Norma encobre o que aconteceu. Voltariam a ser cúmplices numa morte pouco depois de Norma adquirir o Bates Motel. O filho impede que a mãe seja violada e depois ela mata o agressor. Não tenho vontade alguma de chorar a morte de um traste que ataca mulheres, mas são duas experiências brutais com que Norma e Norman lidam em tão curto espaço de tempo e o facto de serem cúmplices em algo tão aterrador não podia, certamente, dar origem a uma relação muito saudável. Também não o é a relação com Dylan, o filho mais velho, mas esta sempre é menos estranha. Para Dylan, a relação entre a mãe e o irmão mais novo é tão estranha quanto o é para mim, enquanto espectadora. Dylan não é apenas o filho que se sente rejeitado porque a mãe não se deu sequer ao trabalho de o informar para onde tinha ido viver, ele vê as coisas com clareza e sabe que a mãe é tóxica. Ela manipula Norman de todas as formas possíveis e imaginárias, impedindo-o de ser um jovem normal que sai com raparigas da mesma idade, trata-o como um menino pequeno apesar de ele já ser um adolescente, o que o torna extremamente dependente, ao mesmo tempo que também ela se apoia nele para tudo. A sério, e que cena é aquela de dormirem na mesma cama e fazerem conchinha? Havia muito mais a dizer, mas o incesto é uma coisa que me causa bastante confusão e por isso acho que vou ficar por aqui. Ah, é verdade, e lembram-se da parte em que Norma acaba morta às mãos do filho? Pronto, acho que isso resume o estado da relação dos dois.

Que outras péssimas mães teriam colocado nesta lista? Aquelas tão más que se sentem gratos por serem ficcionais e que vos fazem sentir extremamente gratos por não serem as vossas?

Diana Sampaio