Adaptada de uma obra do autor Tom Perrotta, The Leftovers é uma série em exibição desde 2014 e produzida por nada mais nada menos que Damon Lindelof (Lost), que já nos habituou com o seu esplêndido trabalho em muitos outros projetos. A série de mistério e drama conta-nos, a meu ver, várias histórias dentro de uma história principal.

Com duas temporadas já completas e com a 3.ª e última com estreia prevista para janeiro do ano que aí vem, apresento de seguida 7 razões para se tornarem adeptos de uma das minhas séries favoritas.

1 – O Enredo

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Sem que nada o fizesse prever, cerca de 2% da população desaparece. Seria de esperar que a história se centraria neste tema, na tentativa de perceber as causas que levaram a esse infortúnio, mas The Leftovers vai mais além e decide focar a sua trama nos sentimentos e lutas pessoais dos que ficaram e no meio desse turbilhão está Kevin Garvey (Justin Theroux), um polícia que, mesmo não tendo perdido ninguém próximo no acontecimento do dia 14 de outubro, luta pela estabilidade da sua vida pessoal e profissional, que parece desmoronar-se a cada instante que passa. A sucessão de eventos da série, e como tudo parece querer ligar-se a Kevin e às suas ações, é absolutamente cativante e capaz de prender o espectador ao ecrã durante horas. Não estamos perante a típica série de mistério e drama, mas sim de uma viagem da mente que nos envolve por diversos motivos (pontos seguintes).

2 – Personagens Complicadas

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Se gostam de séries onde habitualmente podem contar com aquele número de personagens que são praticamente o mesmo em todos os episódios, The Leftovers não é para vocês. Estamos a falar de uma complexidade enorme de personagens. Temos toda a família Garvey, desde o pai Kevin, até ao filho mais velho Tom, que vive numa incerteza e desorientação imensa, aliando a isso a pertença a um culto “pós-apocalíptico” completamente focado na poligamia e numa reencarnação estranha de uma entidade espiritual, passando por Jill, a petiz da família, revoltada pela situação familiar que começou a desmoronar após o abandono da mãe. Além disto, há ainda um padre que procura uma aceitação desenfreada e que perde o seu próprio rumo à medida que o tempo avança; Patti, a líder de uma seita completamente fora do explicável e normal que parece ao mesmo tempo ser a psique de um outro personagem da trama, entre outras. Só pelo emaranhado de personagens e as suas lutas pessoais, esta série já vale a pena, acreditem!

3 – Sensação de “Vazio”

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Episódio após episódio, na maioria das séries, vai surgindo um entendimento, uma perceção real do rumo que a história vai tomar. Aqui isso não acontece. Pelo menos comigo. Quando pensamos que estamos prestes a perceber o que se poderá vir a passar, a achar uma réstia de nexo na história ou até mesmo a entender o carácter de um personagem, chega o próximo episódio ou até mesmo a próxima cena e… nada. Não é que não se perceba, é simplesmente um “vazio” porque em nada tem a ver com o momento/cena mostrada há instantes pela personagem ou pelo contexto do episódio. Mas é um “vazio” positivo, pois cria-nos constantemente a esperança de que no fim tudo irá ser explicado e fará finalmente sentido. Spoiler Alert: Não vai.

4 – O Misticismo

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Ao longo das duas temporadas já exibidas lidámos várias vezes com conceitos ligados ao divino. As seitas que lidam com a dor e com o sucedido (desaparecimentos) de formas bastantes distintas, mas baseadas num modo de agir semelhante (a vontade de uma entidade superior), a crença por parte de alguns personagens que todo o sucedido poderá ser desfeito a qualquer instante (milagres), as “viagens” entre mundos e realidades (nada de ficção científica, atenção!), tudo isto fazendo com que exista na série uma forte componente mística resultado da fé na possível comunicação entre o homem e o que é transcendental e divino.

5 – Juízo Individual

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O bom destas séries enigmáticas é que a interpretação que se tira das mesmas, episódio após episódio, ou temporada após temporada, será sempre subjetiva. Isto é, a perceção que eu tenho sobre a série, sobre o verdadeiro ponto fulcral da história, será sempre diferente quando comparado com o ponto de vista de outro visualizador. Certo é que após recomendar esta série a alguns amigos, debatem-se opiniões e impressões que sempre se distanciam nem que seja num aspeto mínimo. Isso é bom para quem gosta deste tipo de produções pois sabemos que mesmo após o término da série, poderão advir grandes e interessantes debates perspetivos sobre a mesma.

6 – A Banda Sonora

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Confesso que, a par de Lost, esta foi a única série que me fez pesquisar sobre a banda sonora. Genial, fantástica, completamente adequada, simples. Max Richter, o responsável pela componente musical da série, é um compositor talentosíssimo que foi capaz de criar toda uma variedade de temas perfeitamente enquadrados com os vários momentos da série. Desde o tema da sequência de abertura, até aos leves toques de piano entre diálogos, a série conta com uma banda sonora triste, sentimental, contudo poderosa, que se tornou parte do meu “arquivo” pessoal e que com regularidade ouço.

7 – Turbilhão de Emoções

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Por último, o que eu gosto imenso nesta série prende-se com a capacidade de causar uma diversidade de emoções ao espectador. A complexidade da série e o seu elevado tom sério e psicológico fazem com que num episódio de uma hora sejamos capazes de viver todo um conjunto de sentimentos e emoções, seja em relação aos personagens, aos seus relacionamentos, à trama em si, ao sucedido etc., e esse turbilhão faz-nos, em certas alturas, questionar determinados aspetos da série que se podem aplicar em nós próprios e nas nossas vivências.

João Alves