Há dezenas e dezenas de séries policiais americanas e todos os anos parece haver mais uma a juntar-se à lista de estreias das principais cadeias televisivas, mas fica a sensação de que já não há nada de novo dentro desse género. No entanto, as produções europeias têm-se revelado uma verdadeira lufada de ar fresco no panorama das séries e Engrenages foi uma das melhores surpresas com que tive a sorte de me cruzar nos últimos anos. Quando comecei a ver, estava longe de imaginar que uma série francesa da qual nunca tinha ouvido falar iria entrar para a minha lista de preferidas da altura, mas foi precisamente isso que aconteceu. Descobre o porquê de me ter deixado ‘agarrar’ tanto por esta série e, quem sabe, talvez fiques com vontade de a ver também.

engrenages

1 – Diferente de todos os outros policiais

É ao distanciar-se da habitual oferta dos canais americanos que Engrenages me conquistou. Sempre me pareceu muito fantasiosa a forma como há bases de dados sobre as mais improváveis coisas, a rapidez com que os testes laboratoriais ficam prontos, uma série de pormenores desse género. Aqui parece tudo muito mais realista, menos fácil, menos glamoroso: a investigação faz-se nas ruas e os computadores geralmente são usados para preencher relatórios. No entanto, é ao ir para além de um mero policial que Engrenages prima pela diferença. Não nos limitamos a acompanhar o trabalho levado a cabo pelos elementos da Polícia Judiciária de Paris, mas também os esforços dos advogados e juízes envolvidos nos casos. Aqui não há possibilidade de pena de morte e o sistema judicial francês é muito diferente do americano em vários aspetos. É interessante ver isso.

Engrenages Laure bebé

2 – Bom retrato da vida real (e não apenas mais um produto de ficção)

Não são poucas as vezes em que estou a ver uma série sem conseguir realmente ‘mergulhar’ dentro dela por ser pouco realista, mas Engrenages parece verdadeiramente genuína. Os polícias, por exemplo, parecem-se com pessoas do mundo real e não com modelos sempre muito bem vestidos e de cabelos arranjados; nenhum dos personagens leva uma vida glamorosa em apartamentos caros que saberíamos que não poderiam pagar. Além disso, as investigações aos crimes ocorridos não envolvem os nossos polícias infiltrados ou outros clichés das séries americanas. Os personagens têm personalidade e problemas reais, mas que não parecem estar sempre a intrometer-se no trabalho que desempenham. A mais recente temporada merece destaque pela forma como explorou o drama de Laure Berthaud com a sua bebé nascida antes do tempo e a dificuldade desta mãe em ligar-se a uma filha que poderia perder muito rapidamente. Estes personagens estão longe de serem perfeitos e têm defeitos e dúvidas com os quais é fácil identificarmo-nos.

Engrenages

3 – Cada temporada conta um caso diferente

Ao contrário da maioria dos policiais, Engrenages não se dedica a explorar um caso por episódio, optando antes por nos fazer mergulhar numa investigação ao longo de uma temporada inteira. Enquanto alguns poderão encarar isto como uma desvantagem que nos obriga a ver todos os episódios para estar a par da narrativa, mas não necessariamente. É claro que é preferível acompanhar cada temporada desde o início, mas a verdade é que comecei a ver esta série, por acaso, na RTP2, já a 3.ª temporada tinha começado e nem sequer vi o episódio desde o início, mas no dia seguinte lá estava eu a mudar para o mesmo canal à hora do novo episódio. No outro já estava completamente agarrada à história. No entanto, eu encaro esta fórmula de um caso por temporada como algo positivo. Há mais tempo para contar a história, sem os habituados desenvolvimentos demasiado rápidos que fazem o trabalho policial parecer uma brincadeira de crianças, e para conhecer todos os lados envolvidos na investigação. Com casos sólidos, é difícil ver o primeiro episódio de cada temporada sem querer descobrir o desfecho.

Engrenages

4 – A abordagem de temas da atualidade

França é uma das grandes potências europeias, um país que há muito é conhecido por receber imigrantes dos mais variados cantos do mundo e que, desde há alguns anos atrás, tem sido alvo de vários ataques terroristas perpetrados por extremistas. A série não se inibe de abordar estes e outros temas tão atuais como o terrorismo, tráfico de armas e escândalos políticos, acompanhando uma realidade que poderíamos perfeitamente estar a acompanhar nos noticiários. Também na mais recente temporada tivemos a oportunidade de ver que a importância do movimento #MeToo chegou a este lado do oceano. Numa temporada que considerei inferior às três anteriores, valeu a narrativa que colocou uma das personagens principais a lidar com uma agressão sexual para me colar verdadeiramente ao ecrã. Acho que não havia uma altura mais oportuna para abordar este tema e Engrenages provou, mais uma vez, que acompanha a realidade do nosso mundo.

Engrenages Joséphine

5 – Joséphine Karlsson

Audrey Fleurot é protagonista das minhas duas séries francesas preferidas e faz também parte do elenco de um dos meus filmes franceses favoritos, Intouchables, portanto é sempre um prazer enorme vê-la no ecrã. A personagem que interpreta aqui, Joséphine Karlsson, foi a minha favorita desde o início e assim se mantém como tal. Joséphine é tudo aquilo de que gosto numa personagem: forte, mas vulnerável ao mesmo tempo, e também com um certo mau feitio com o qual me identifico. Apesar de ser a minha personagem preferida, a verdade é que Joséphine consegue ser incrivelmente frustrante e há alturas em que dá quase vontade de a odiar, pois a sua bússola moral tende a pender terrivelmente para o lado errado. No entanto, esta advogada é imprevisível, por isso cada momento é uma caixinha de surpresas no que a ela diz respeito. Audrey tem uma presença muito forte e quando está em cena destaca-se sempre; quando não está, sente-se a falta dela, inevitavelmente.

engrenages

6 – Boa gestão do elenco

Há séries com um elenco excessivamente grande, com histórias dispersas por todo o lado, onde não são raras as vezes em que os personagens de quem não gostamos roubam tempo à narrativa principal. Aqui não há este problema, de forma alguma. O elenco de Engrenages é relativamente pequeno, com cerca de cinco ou seis personagens a comporem o núcleo central da série, mas depois há mais alguns elementos que podemos ver na maioria dos episódios. Há um equilíbrio muito bom na gestão do elenco, porque os protagonistas contracenam com outros personagens mais secundários, mas estes últimos não têm histórias pessoais. Essas ficam reservadas para Laure, Gilou e Tintin na esquadra e para Joséphine e o Juiz Roban.

Engrenages Temporada 1

7 – Evolução gradual da qualidade

Tal como já tinha referido, comecei a ver a série já a 3.ª temporada estava a decorrer, mas depois de ter visto tudo para a frente tive que voltar atrás para ver as duas primeiras temporadas e o início da terceira. Percebi que tinha tido a sorte de me cruzar com Engrenages no seu melhor. Nota-se que a 1.ª temporada tem o seu quê de amadorismo, tanto a nível de produção como de narrativa, mas a seguinte já apresenta uma grande melhoria, é uma série que evolui à medida que vai encontrando o seu lugar na televisão francesa. Foi bom ver este crescimento, até porque muito tempo se passou desde que Engrenages estreou, no final de 2005, até à mais recente temporada, emitida mais de dez anos depois. A série só vai para a 7.ª temporada, mas dois anos separam a emissão de cada temporada, portanto temos sempre uma longa espera.

Para aqueles que estiverem curiosos, a série também é emitida no Reino Unido sob o nome de Spiral, estreou na América do Norte através da Netflix e as cinco primeiras temporadas encontram-se disponíveis na Hulu. É ainda de destacar que a série foi a vencedora do International Emmy Award para Melhor Série em 2015.

Diana Sampaio