Classificação

8
Interpretação
10
Argumento
9
Realização
9
Banda Sonora

3 Mulheres é a nova série de ficção nacional produzida pela RTP e pela David & Golias.  Parte “das biografias e da intervenção cultural e cívica da poetisa Natália Correia, da editora Snu Abecassis e da jornalista Vera Lagoa (pseudónimo de Maria Armanda Falcão)” para nos mostrar um ponto de vista, não muito usualmente protagonista, do ambiente vivido em Portugal na década que precedeu a Revolução dos Cravos. Cruzando os percursos de três mulheres influentes e irreverentes, a série “recorda os últimos anos do Estado Novo – 1961 a 1973 – do início da Guerra Colonial à véspera da Revolução de Abril.”

Como nos é alertado no início do episódio (e há que ter isto em conta dado não se tratar de uma série documental, ainda que baseada em factos históricos), personagens, locais, acontecimentos e datas foram alterados para fins dramáticos. Ainda assim, a série mantém-se fiel à realidade histórica que pretende retratar e à intervenção que estas três mulheres tiveram nesta época.

Natália Correia, interpretada na série por uma brilhante Soraia Chaves, foi uma escritora e poetisa portuguesa cuja intervenção política foi marcante, nomeadamente ao nível da cultura, direitos humanos em geral e das mulheres em particular. Soraia Chaves confere à personagem uma ousadia, vigor e firmeza que parece tão credível como personalidade de Natália Correia e que tornam a sua interpretação a melhor deste episódio de estreia.maria joao bastos 3 mulheres

Maria Armanda Falcão, interpretada na série por Maria João Bastos, foi uma poetisa, jornalista, cronista, locutora e empresária portuguesa. É-nos apresentada na série como amiga de Natália Correia e como uma participante ativa na oposição ao regime de Salazar. É provavelmente a protagonista que mais tempo de antena tem neste episódio inicial e, ainda assim, é aquela cuja personalidade e ideologias se mantêm mais escondidas, mas que deixam a curiosidade, especialmente com a cena final, após o aprisionamento do seu marido pela PIDE e pelas razões da busca que é feita ao seu escritório.

A fechar o trio de protagonistas temos Snu Abecassis, a inteligente e audaciosa editora dinamarquesa, casada com o português Alberto Abecassis, que se muda para Portugal e que será a fundadora das Publicações Dom Quixote. Para além das discussões contra os ideias do Estado Novo que a podemos ver a ter com outras figuras, um dos momentos mais particulares em que podemos ver o seu posicionamento é quando olha tristemente para a empregada a despedir-se do filho que ia ser enviado para a guerra em Angola. Vitória Guerra dá vida à dinamarquesa com uma sensatez, perspicácia e postura (e um inglês perfeito) que tornam a sua performance, juntamente com a de Soraia Chaves, um dos pontos mais fortes desta produção.

Com uma passagem rápida por 1967, com Natália Correia em tribunal devido à publicação da obra “Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica”, a narrativa rapidamente retrocede seis anos, dando a entender qual será o percurso e as vertentes cultural, ideológica e política que a série desenvolverá durante esta temporada. Pergunto-me se ultrapassará o momento inicialmente apresentado, se culminará nele ou se iremos ter um desenvolvimento paralelo dos dois períodos temporais. O episódio não é claramente mais do que de apresentação das personagens e do contexto histórico do que desenvolvimento de acontecimentos, o que não retira o interesse que gera ao longo dos seus 45 minutos.3 mulheres pide

Para além do cruzamento das histórias das três personagens principais, a série vai introduzindo outros nomes de relevo da cultura e do meio político português da época como (para além da PIDE,) Luís de Sttau Monteiro e José Manuel Tengarrinha, neste primeiro episódio e, espero eu, até Francisco Sá Carneiro, no futuro, dada a sua ligação tanto a Snu como a Natália Correia.

Além disso, a série conta com uma caracterização excelente, desde o guarda roupa, aos cenários, aos objetos (a pensar particularmente no carro conduzido por José Manuel!), passando pela recriação dos meios e da realidade (o piquenique no clarão da mata, o bairro de lata que é visitado para a publicação do livro de Natália…)

Desde Conta-me Como Foi, e em especial nestes últimos anos, que as apostas da RTP em séries nacionais têm trazido conteúdo de uma excelente qualidade e muito bom entretenimento, com uns toques de história e cultura que caem sempre muito, muito bem. 3 Mulheres é sem dúvida mais uma dessas excelentes e promissoras produções, com um excelente elenco, caracterização e argumento. E ouvir falar do Estado Novo e do período pré-revolução, sem ser somente pela história e olhar de políticos ou militares (no masculino), traz umas quantas lufadas de ar fresco.

A minha crítica mais negativa?  Irá definitivamente para uma questão superficial, o poster de promoção da série. Retira o enquadramento da série com aquele fundo cinzento, tendo um toque muito “anovelado” (é só escrever “novelas portuguesas” no google e ver a quantidades de vezes que este tipo de construção gráfica é usada nos posters em Portugal) e desprovido do contexto histórico que a série tem, o que não capta a sua essência e não fica muito cativante para o transeunte que se esbarre com ele. Tudo isto para dizer que espero que as pessoas deem oportunidade à série apesar de o poster não ser grande coisa.

Parabéns, RTP e David & Golias! Eis uma série que vou, sem dúvida, seguir.

Mélanie Costa