Classificação

10
Interpretação
10
Argumento
10
Realização
10
Banda Sonora

Este texto tem spoilers!

O episódio quatro foi, até agora, o melhor episódio da temporada. Não é que aconteça muito em termos de ação, mas explicou muito da narrativa. Realizado por Lisa Joy, uma das criadoras da série, o quarto capítulo desta temporada arrebatou qualquer pessoa.

Para fazer esta review, decidi dividi-la entre três personagens chaves neste episódio.

James Delos

O episódio começa com um plano-sequência brutal que mostra o acordar do chefe da Delos. A cena faz lembrar American Psycho, pincelada por uma versão da música Play with fire dos Rolling Stones. Que maravilha!

James Delos está a viver numa espécie de cela quando recebe a visita de William. Eles têm uma conversa sobre as experiências do parque e finalmente ficamos com a certeza de que um dos pontos chave é a transferência da consciência dos humanos para os robôs. James é um anfitrião com a consciência do já falecido Delos. Ao perceber isso, James diz a William que está bem e que se sente pronto para sair, apesar de William lhe dizer que os robôs funcionam por narrativas e repetição. Nisso, William dá uma carta a Delos e este fica chocado ao ler, começando a entrar em curto-circuito.

Mais tarde, voltamos a ver James Delos a acordar. Ele tem exatamente a mesma rotina. Diz as mesmas palavras. Tem os mesmos gestos. Este loop é muito bem caracterizado pela bicicleta onde Delos se exercita ao acordar. William, mais velho, volta a aparecer e tem exatamente a mesma conversa com Delos. Desta vez, vemos o conteúdo da carta escrita por William. A carta é nada mais, nada menos do que um guião da conversa, tendo lá as falas de Delos. Ele volta a entrar em colapso e William sai do local, que nos é mostrado ser uma cela de observação. Ele manda a cientista meter fogo na cela, destruindo Delos.

A terceira parte mostra Delos a receber o William velho, interpretado pelo enorme Ed Harris. Delos nem o reconhece ao início. William revela que eles já andam nisto há anos, mas que, quando fazem o teste decisivo, o anfitrião entra em colapso. Segundo William, os anfitriões apenas aguentam trinta e cinco dias até se bugarem, passo a expressão. Quando os anfitriões têm contacto com a realidade eles não aguentam, como é o caso de Delos ao longo dos anos. Sempre que William aparece, ou seja, a realidade, ele colapsa. William ainda revela durante a conversa que a sua esposa, filha de Delos, se suicidou e que Logan morreu de overdose. Ele diz que os testes com Delos acabaram e que há pessoas, como ele e Delos, que é melhor estarem mortas. Ao ir embora, William diz ao cientista que lá estava para deixar Delos a apodrecer assim.

Segundo consegui apurar, esta cena ocorre precisamente no momento antes de William começar a sua jornada, a que vimos na 1.ª temporada.

Bernard

Clementine deixa Bernard ao pé de uma gruta. Lá ele encontra Elsie, que afinal está viva. Os dois juntam-se quando Bernard lhe revela que é um robô e que foi controlado por Ford, que agora está morto. Eles encontram uma passagem secreta que leva a um laboratório. Isto porque Bernard está a ter memórias misturadas; já esteve naquele lugar três vezes!

O laboratório está cheio de corpos, quer dos cientistas, quer dos robôs. É naquele laboratório que estão as cópias das mentes humanas. As cópias são aquelas máquinas vermelhas na cabeça dos anfitriões. As criadas por eles são brancas, as cópias são vermelhas. Os dois encontram ainda a cela onde estava James Delos. Está todo desfigurado, destruiu tudo à sua volta, e eles lá lhe dão um fim. Bernard pega numa consciência, não sabemos de quem, e parte com Elsie.

As três idas de Bernard são:

– Quando está sob o controlo de Ford, ele vai até lá e manda os robôs matarem os cientistas e depois matarem-se. Ele foi lá buscar qualquer coisa que não sabemos o quê. Acredito que aqui Bernard não tenha dado pela existência de Delos e por isso é que o criador da empresa ainda lá estava.

– A segunda vez é a que mais vemos no episódio. Bernard encontra Elsie e os dois descobrem James Delos. Nesta vez, Bernard leva as informações sobre um humano. Quem será o humano? Será a mente de Arnold? Será que o Bernard da praia com os militares é na verdade Arnold?

– A terceira vez, Bernard está sozinho. Não sabemos o que aconteceu, nem porque razão ele regressou ao laboratório. O que terá ele ido lá fazer? E onde está Elsie?

Deixo outra pergunta; será este laboratório o tão falado glory?

William e Lawrence

Esta dupla tem um papel importante no episódio. Lawrance revela ter memórias passadas, quer da sua mulher e filha, quer do próprio William, lembrando-se de conversas que estes tiveram noutras narrativas. Os dois regressam a Las Mudas e são atacados por Major Craddock, o homem que foi traído por Dolores. Craddock sequestrou a cidade numa igreja e quer arranjar maneira de ir para onde Dolores vai. William tenta negociar e diz que não é amigo de Lawrence e que por isso não o vai salvar, mas ao ver o sofrimento real da mulher e da filha dele, William acaba por matar toda a gente, dando a Lawrence a hipótese de acabar com Craddock, coisa que ele não desperdiça. William revela sentimentos de compaixão, dando até a entender ter alguma simpatia por Lawrence. Ford, que é uma espécie de ser omnipresente, fala através da filha de Lawrence e diz a William que ele está a cometer um erro; que não pode olhar para a frente, mas sim para o passado. Existe uma teoria, que às vezes faz sentido, que diz que William poderá ser um robô. Ele terá morrido, mas a sua consciência fora transportada para um corpo. Ao contrário de Delos, William ainda não bugou e a tão falada porta que ele terá de descobri poderá ser o encontro com a realidade de que ele já morreu.

Uma curiosidade importante que deixo aqui é que a palavra host, muitas vezes utilizada na série, que tem como tradução anfitrião, mas se formos à tradução mais literal temos a palavra hospedeiro, ou seja, algo que recebe outra coisa. Serão os robôs hospedeiros de mentes humanas? Fica a questão.

Acabo a dizer que vou dar nota dez a este episódio. Não só por ele, mas por tudo o que a série representa. Este episódio foi um hino à qualidade que a televisão pode oferecer. Quem ainda não viu Westworld que arranje um tempinho e veja, porque a série merece. Não sou muito de sugerir ou dizer o que as pessoas devem ver, pois cada um tem os seus gostos, mas por tudo o que neste momento representa Westworld, por toda a filosofia, qualidade técnica, qualidade de escrita e qualidade de representação, sou obrigado a deixar uma nota de recomendação para esta maravilhosa obra-prima do entretenimento.

Carlos Real