Classificação

10
Interpretação
10
Argumento
10
Realização
10
Banda Sonora

Apesar da enorme expectativa montada em torno do episódio do domingo de Superbowl, quanto a mim, este sim, foi “O” episódio, superando o anterior. Quanto a mim superou o anterior sobretudo porque a magia de Jack Pearson esteve presente. Foi um episódio superior em termos de carga emocional, equilibrando todo o dramatismo inerente ao duro momento que a família Pearson atravessa com um imenso amor que Jack deixou aos seus filhos e à sua mulher em memórias que valem ouro, acompanhando esta jornada com o simbolismo do “carro de família”, não faltando a presença de uma personagem que, aparecendo em poucos episódios, consegue sempre uma cena extraordinária.

Este seria então o episódio do funeral de Jack, da despedida física daquela pessoa que tanto marcou a família e amigos, mas o foco não foi colocado nessa despedida (e muito bem!), foi então enaltecido o que Jack deixou a esta família, as lições que lhes transmitiu e o que desejava para eles.

No entanto, há duas cenas das cerimónias fúnebres que valem a pena rever, pois foram dignas de nota: uma delas, a que contou com a presença da personagem a que me referia na introdução, o Dr. K. O médico que viu Jack e Rebecca tornarem-se pais de três filhos, cruzando-se com eles no momento mais importante das suas vidas, e com certeza tendo marcado Jack e Rebecca, foi também ele marcado por Jack e Rebecca e, como tal, não poderia deixar de estar presente naquele momento, para transmitir a Rebecca uma importante mensagem: Rebecca achava que nunca seria capaz de seguir em frente e cuidar de tudo, da família, sem Jack. O Dr. K. conseguiu fazer ver a Rebecca que Jack também tinha receios, relativos à sua mulher e filhos, e em conseguir garantir a sua felicidade e segurança, por isso ele aparecia de tempos a tempos no seu consultório a pedir conselhos. É natural ter receios, mas Jack tinha feito um excelente trabalho a cumprir a sua missão com aquela família. E essa missão também se deveu muito a Rebecca. Não era apenas Jack que era forte, Rebecca também perdera um filho, adotara outro, e, juntamente com Jack, suportara aquela família. O Dr. K. lembrou-a que também era resiliente e que seria capaz de seguir em frente. E foi isso mesmo que ela fez.

A segunda cena tem Rebecca e os seus três filhos juntos da árvore de Jack, a mesma árvore onde vimos o Kevin adulto no episódio anterior e onde Jack levara Rebecca no início deste episódio: mais uma cena brilhante para Mandy Moore, garantindo os filhos rapazes que eles não teriam de ser os homens da casa, ela seria “a mulher da casa”, enquanto eles só tinham de se preocupar em continuar a viver as suas vidas do mesmo modo e garantindo a Kate que ela não tinha culpa pelo que aconteceu. Jack era crescido e tomava as suas próprias decisões, mesmo que Kate não tivesse pedido, ninguém acredita que Jack Pearson não voltasse a entrar na casa para salvar o cãozinho. E ali, naquele momento, parte das cinzas foram libertadas junto à árvore, Kate guardou as restantes e Rebecca fez uma promessa a Jack de que ficariam bem.

Neste episódio, tivemos momentos de Jack com cada membro da família e de novo desempenhos marcantes de Milo Ventimiglia:

Começámos com Rebecca, a quem umas tonturas tinham levantado dúvidas sobre uma possível condição de saúde grave e nos momentos que esperaram pelos resultados que confirmariam ou dissipariam esse cenário, Jack, com todo o seu romantismo, e debaixo de um cenário com neve a cair sobre eles, levou Rebecca até àquela que passou a ser “a sua árvore”, e, com o poder das suas palavras, acalmou Rebecca, deu-lhe o conforto e motivação necessária para respirar até ao momento em que as boas notícias chegaram e confirmaram as crenças otimistas de Jack. Foi também o momento para Jack partilhar outra das suas crenças, que abandonaria este mundo primeiro que Rebecca (Jack só não sabia que estaria para tão breve) e que não queria ir para debaixo da terra, queria ser libertado ao mundo.

Com a menina dos seus olhos, Kate, outra excelente memória, de quando Jack a encontrou a faltar às aulas para ir a uma sessão de autógrafos da sua artista preferida, Alanis Morissette, e de quando Jack em vez de repreender e levá-la às aulas, a colocou no carro e a levou justamente aonde ela queria ir, aproveitando para partilhar música com a filha pelo caminho, ouvindo Alanis, mas revelando também o seu ídolo musical, Bruce Springsteen.

Com Kevin e Randall foi uma memória conjunta, quando Jack ensinava Randall a conduzir, pela primeira vez. O constante conflito entre os irmãos, essencialmente motivado pelo irritante Kevin adolescente, quase causava um grave acidente, felizmente evitado. E Jack, naquele momento, deu uma lição aos filhos, que com certeza não se esquecem até aos dias presentes. Jack não teve a sorte de ter um pai e uma mãe que olhassem por ele, então ele e o seu irmão, de quem nunca fala porque a sua perda lhe custou bastante, eram o único apoio um do outro, eram a única pessoa em que cada um poderia confiar para tudo. Já Randall e Kevin tinham uma importante decisão a tomar, resolver ou não o problema entre eles, afinal de contas o pai e a mãe não estariam sempre presentes e eles só se teriam a eles e à irmã para se ampararem. O discurso não teve um efeito imediato, aliás, vemos Kevin culpar Randall por não impedir o pai de tornar a entrar na casa em chamas e vemos Kevin fazer uma cena por Randall usar o relógio do pai no funeral, mas momentos mais tarde a ficha cai para Kevin e, no presente, aquele discurso estará ainda bem presente na cabeça dos dois irmãos que têm uma agora uma relação bem diferente da que costumavam ter.

O carro é tipicamente um sítio onde muitas famílias passam tempo juntos, seja na rotina diária, seja nos passeios de fim de semana, seja em longas viagens, é um verdadeiro baú de recordações. Nestas cenas, o carro foi o elemento comum a todos esses momentos e tantos outros que compuseram o rico rol de memórias da família Pearson, e como tal, foi o exemplo perfeito para simbolizar a união da família e o que Jack queria dar e deu à sua mulher e aos seus filhos: temos, na cena final, acesso à conversa de Jack para com o vendedor de carros, que lhe valeu um preço comportável para o carro que queria para a sua família (Jack com o seu discurso convenceria qualquer um), mas mais importante que isso, temos a partilha do que ele realmente desejava para a sua família, já referido pelo Dr. K, mas agora ouvido diretamente da boca de Jack: que estivessem bem! E para isso precisava de protegê-los, envolvê-los, torná-los fortes e precisava de um “carro forte” que aguentasse longos anos de uma família numerosa. Rebecca diz que Jack parecia ver as coisas antes delas aconteceram. A verdade é que Jack estava certo e após a sua partida, ali estava Rebecca com os três filhos dos dois, dentro daquele carro, e “estavam bem”, rumo à surpresa que ele havia planeado para eles, um concerto de Bruce Springsteen para toda a família.

The Car” foi, para mim, sem dúvida alguma, um dos melhores episódios de This Is Us.

André Borrego