No plenário do século XXI assistimos a uma crescente aposta em séries como forma de entretenimento público. Se bem me recordo, nunca houve tanta variedade de séries e produtoras dedicadas inteiramente ao desenvolvimento e propagação desse conceito como agora e, como caraterística desta nova “indústria” que gera já milhões e milhões de receitas, surge naturalmente uma suposta “migração” de talentos que anteriormente só víamos em filmes, ingressando no mundo das séries, tanto em papéis de atuação como de produção/criação de conteúdos (Tom Hardy, Ben Affleck, James Franco, Anthony Hopkins, Nicole Kidman, etc.).

A pergunta inicial que coloco aos amantes de séries, seriólicos tal como eu, é a seguinte: Até que ponto esta abundância de produções é positiva para os verdadeiros aficionados de bom conteúdo? Faço esta pergunta pelo simples facto de que, ultimamente, a meu ver, não vemos séries, mas sim repetições contínuas e intermináveis.

Vejamos o primeiro exemplo: as séries de comédia. Geralmente temos um ou dois personagens principais e um interesse romântico. A adicionar a isto, vêm as personagens secundárias que das duas uma: ou a série tem sucesso e conseguem mais destaque e tempo de ecrã e depois temos uma multiplicação de histórias semelhantes à dos protagonistas ou então torna-se a tão mais típica série de comédia com problemas do dia a dia. E o processo repete-se e hoje praticamente todas as séries de comédia se baseiam nisto. Friends, Malcolm in the Middle, Everybody Loves Raymond e Frasier foram as primeiras séries de comédia que me lembro de assistir e na altura não tinha como fazer comparações, uma vez que o transmitido em Portugal era bastante limitado e a tenra idade que tinha não me permitia a descoberta de outras formas de streaming deste tipo de programas.

No entanto, compreendo até que haja inspiração para novos conteúdos tendo como pilar um modelo anteriormente consagrado, mas hoje em dia chega a ser ridículo o forcing que há em “cuspir” séries deste género (comédia) só porque sim. Entendo: há que fazer pela vida e os produtores/realizadores quanto mais de bolsos cheios estiverem, melhor. Mas e que tal mudar um pouco o enredo e apostar em algo original?  – “Ah, e tal, não dá.” Dá, poça!!! Temos exemplos disso: Workaholics, The Mick, Superstore, Master of None… São séries que, embora se baseiem nos trâmites usuais das séries de comédia (problemas do dia a dia, romance), cultivam o humor inteligente, um sarcasmo notório e situam-se num ambiente diferente. Um outro problema das séries de comédia hoje em dia é o tempo. O tempo que duram e o abuso em termos de histórias e arcos forçados. The Big Bang Theory, por exemplo, era uma das minhas séries prediletas e neste momento só sinto embaraço ao ver episódios destas duas últimas temporadas. Uma série que em tempos me fazia ansiar pelo episódio seguinte, agora só quero sinceramente que termine. Prolonga-se há tempo de mais, escasseia no conteúdo novo e interessante, descredibiliza cada vez mais os personagens tornando-os apáticos e o que é que fazem? Mais duas temporadas só mesmo porque sim. Tem audiências enormes? Tem! Tem conteúdo? Não me venham com “filmes”, porque claramente já não tem. O mesmo se passou com How I Met Your Mother: demasiado prolongada que acabou por corroer todo o bom trabalho feito até então, com um final desastroso, totalmente irritante, e que me fez criar um sentimento de desgosto pela mesma.

Mas o problema não reside unicamente num tipo de série.  Outra das “sagas” que abunda em demasia é aquela a que eu gosto de chamar: “Olhem para mim, para o meu trabalho e para os problemas que eu tenho…problemas esses que seriam totalmente impossíveis de se suceder num ambiente de trabalho dito normal.” Este modelo de séries há a pontapé!!! A série pode ser sobre um esquadrão de polícias e a sua luta contra o crime, sobre um departamento de publicidade de uma empresa ou até sobre uma retrosaria situada no “fim do mundo”, mas surgem sempre aqueles problemas que não lembram nem ao menino Jesus: a tia do afilhado da avó que se envolve com o avô de uma prima do tio dele, mas que afinal é um ourives corrupto que por sua vez tem uma casa de Kebabs em Souselas. Estão a perceber a ironia? CSI’s, Chicago PD, Fire, Med, House, Laws and Order, Hospitais não sei das quantas, advogados… isto está saturadíssimo, gente! Isto é “palha” e, sinceramente, é ridículo! Se há séries excelentes deste género? Há sim! Irá continuar a haver. Mas por favor parem com a aposta constante em cópias e recópias e re-recópias. Falta originalidade, vontade e dedicação, porque se realmente houvesse dedicação a produção deste tipo de sagas já teria acabado ou pelo menos aliviado um pouco.

Custa-me criticar esta próxima temática, mas também vai ter que ser. Adoro super-heróis e séries que se baseiam nas suas histórias de banda desenhada. Mas ultimamente o que antes me cativava agora não me causa sentimento ou reação nenhuma. A série mais marcante que iniciou e trouxe à tona a aposta em super-heróis foi Arrow, uma série fantástica de ação que agora se tornou num romance bonito e fofinho. Oliver Queen badass e furtivo? Zero. Supergirl teve uma estreia fenomenal, primeira temporada fantástica. Agora? A história da Barbie com capa vermelha. The Flash não sei se é uma série de super-heróis ou um reality show que pretende mostrar o quão irritantes se podem tornar as personagens. Ou seja, temos aqui mais uma saga: “Sou um super-herói fantástico, mas lá para a segunda/terceira temporada vou-me tornar chato e irritante por causa dos meus amigos e equipa.” Com isto quero dizer que à parte das séries deste género produzidas pela Netflix, todas as outras seguem um mesmo modelo precário e previsível que torna algo de suposta ação num romance desinteressante e não necessário. Se continuo a seguir The Flash? Continuo sim. Mas se a “macacada” continuar terá o mesmo destino que Arrow e Supergirl e saltam fora da minha grelha pessoal. Melhorou nestes últimos dois episódios, é um facto, no entanto, mas ou personagens tipo Iris e HR desaparecem do foco ou a série perde-se como as outras e é mais uma para o monte.

Mas calma… ainda não falei do que mais me irrita atualmente no que às séries diz respeito. Ultimamente parece, muito provavelmente devido a alguma tempestade criativa que se fez abater sobre os writers, que a melhor cena de sempre é fazer séries sobre…

Viagens no Tempo! É absurda a quantidade gigante de séries que se baseiam em viagens no espaço-tempo. Temos clássicos intemporais como Dr. Who ou até mesmo Lost, mas o que se vê agora? De 0 a 10, menos 1000! É séries de viagens no tempo com personalidades de várias épocas, é séries de viagens no tempo com polícias, é séries de viagens no tempo com pseudo super-heróis (sim, estou a falar de Legends of Tomorrow!), é séries de viagens no tempo com futuros apocalípticos…  é moda, é o que é! Porque o que é demais, enjoa. A estas séries gosto de chamar as séries tipo Gin (sim, a bebida alcoólica que antes mal se bebia, mas que agora é chique e moda porque o copo balão na mão é giro).

Não me alongarei muito mais, porque sinto que neste ponto do texto muitos de vocês leitores já me estão prestes a “comer vivo”.

Isto nada mais é que um desabafo, um grito de revolta. Estamos a perder as séries, não eu, mas todos nós. Embora cada vez se produzam mais séries e haja outras tantas em desenvolvimento, começo a prever já o fim desta era. Há muita variedade, mas há muito pouca qualidade.

Contam-se pelos dedos as séries de 2016 que me fizeram “vibrar”. 2017 começou bem, mas segue pelo mesmo caminho. Ao início do texto falei da aposta em atores de renome para papéis em séries e com isso quero dizer que esse talento pode ser muito melhor aproveitado. Tivemos Westworld, um produção completamente diferente do que aquilo a que estávamos habituados, uma história sem igual, pelo menos em séries… Stranger Things, um trabalho magnífico… The OA, que apesar de ser uma história imensamente complexa é algo inteligente e que promove o pensamento crítico… The Night Of *suspiro com saudade*

E vemos tanta série excelente a ser cancelada ou a não ter o devido reconhecimento: Incorporated, para mim uma das melhores produções de 2016, infelizmente “ardeu”. Imposters, já agora em 2017, que tem um potencial fantástico e mal é reconhecida… Taboo, com inigualável desempenho de Tom Hardy, The Leftovers (a série mais underrated de sempre!), Riverdale, enfim.

Se repararem com atenção, nenhuma das séries que referi nos últimos dois parágrafos tem precedentes. São tudo ideias novas, originais, frescas, interessantes. Porque farto de ver a mesma coisa ando eu.

Despeço-me assim. Triste. Porque estou a perder algo que me é tão querido.

Lamento, mas as séries, tal qual como eu as conhecia, chegaram ao fim.

João Alves