Já há uns bons tempos que escrevi uma crónica onde falava, entre outras coisas, de livros que, na minha opinião, dariam origens a séries televisivas interessantes. Desde aí, foram mais do que muitos os livros que li e por isso achei que estava na altura de fazer uma nova compilação com aqueles que acho que teriam todo o potencial para passar para o pequeno ecrã e contar boas histórias. Ora, para mim, uma boa história tem que acabar na altura certa, sem se alongar muito para além do seu propósito e por isso considero que estas seis funcionariam bem como minisséries, umas com mais, outras com menos episódios. Fiquem a conhecer as minhas escolhas:

Canadá (Canada)

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Esta é a história de Dell Parsons, um jovem de 15 anos com uma vida normal. No entanto, a normalidade da sua vida termina quando os pais assaltam um banco, com resultados desastrosos e que mudarão a sua vida para sempre. Com o pai e a mãe presos, o futuro de Dell e de Berner, a sua irmã gémea, torna-se incerto, mas não tarda muito até o rapaz se ver sozinho, com a partida de Berner do Montana. No entanto, uma amiga da família aparece para ‘resgatar’ Dell, levando-o para o Canadá, onde ele passará a viver um sem fim de aventuras sob a alçada de Arthur Remlinger, um homem enigmático, em Saskatchewan. A história acompanha um pouco do que é a vida na América dos anos 60 e o percurso de um jovem rapaz cuja vida foi irremediavelmente mudada de um dia para o outro. No entanto, Dell, apesar das partidas do destino, alcança, em adulto, um tipo de vida que condiz com o menino que foi. Richard Ford é um escritor extraordinário e Dell é um personagem muito interessante. Dois episódios seriam o ideal para contar cada uma das diferentes fases da vida do protagonista.

O Primeiro Verão das Nossas Vidas (South of Broad)

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Não sei de onde vem o meu fascínio por histórias passadas em cidades pequenas, mas julgo que se prende com um sentido de comunidade e de amizade que não é fácil de forjar nas grandes metrópoles. Se Richard Ford é extraordinário, Pat Conroy é ainda melhor e este livro está muito próximo da perfeição. A história é passada no final dos anos ’60, em Charleston, Carolina do Sul, e centra-se em Leo King, um adolescente que, depois da morte do irmão mais velho, se vai abaixo. Passado esse período mais crítico, Leo tenta voltar a ter uma vida normal, mas está longe de imaginar que aquele seria o verão, o ano, que marcaria a sua vida para sempre. É nessa altura que ele estabelece um laço de amizade com Sheba e Trevor, os novos vizinhos com uma mãe alcoólica e um pai ainda pior; Niles e Starla, dois órfãos; Chad, Molly e Fraser, três adolescentes de famílias influentes e endinheiradas; Ike, o filho do treinador de futebol americano da equipa da escola; e Betty, outra órfã. Este núcleo improvável formado na adolescência manter-se-á até à idade adulta, altura em que se juntam para uma viagem a São Francisco, para ajudar um deles, que se encontra desaparecido e gravemente doente. Ignorando barreiras sociais e raciais numa época em que o racismo proliferava, esta é uma grande história sobre crescer, sobre laços de amizade… Tem uma certa aura de Friday Night Lights, algo de profundamente humano e real.

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O Rouxinol (The Nightingale)

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Nunca um livro mexeu tanto com as minhas emoções como este, que acabou a disputar com Expiação o título de meu livro preferido, apesar de ainda não ter decidido qual deles ganharia. Carriveau é uma localidade francesa pequena, prestes a viver os horrores da Segunda Guerra Mundial. Os homens partem para o campo de batalha, as mulheres e as crianças ficam, ao mesmo tempo que os nazis ali se instalam. Aquilo que ao início era apenas uma presença incómoda, acaba por escalar rapidamente, o perigo e a morte espreitam a cada esquina. No centro da trama estão duas irmãs muito diferentes, Vianne e Isabelle, afastadas por acontecimentos do passado, mas que a guerra irá unir. Vianne é a mais velha, tem uma filha, Sophie, com quem viverá os momentos mais difíceis que Carriveau já viveu; Isabelle é uma jovem impulsiva e rebelde que se junta à Resistência, onde lutará por uma França livre. O Rouxinol mostra a força e a bravura de duas mulheres que fizeram o que foi preciso para sobreviver e que travaram as próprias batalhas, cada uma à sua maneira, sem nunca esquecer a sua própria humanidade. Embora muitos dos acontecimentos narrados neste livro sejam de uma crueldade atroz, há também algo de imensamente belo nesta história, que termina com nota 10. Céus, Audrey Fleurot (Engrenages e Un Village Français) seria perfeita no papel de Vianne!

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Os Hóspedes (The Paying Guests)

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Em 1922, Londres ainda está a recuperar da Primeira Guerra Mundial e a vida não é a mesma de anteriormente. Frances e a mãe vivem numa casa confortável, têm uma boa posição social, mas ao verem-se sem dinheiro são obrigadas a alugar parte da casa a um casal jovem da classe média. Lilian e Leonard despertam a curiosidade das proprietárias da casa e o sentimento é mútuo. Frances e Lilian vão-se cruzando durante as suas rotinas, acabam por se tornar amigas e novos sentimentos entre as duas começam a florescer. No entanto, numa noite, tudo muda e esses sentimentos serão testados e levados ao limite numa narrativa dramática, intensa e, por vezes, claustrofóbica que faz questionar: até que ponto conhecemos verdadeiramente alguém? e até que ponto podemos deixar que os nossos medos e sentimentos toldem a razão?”.

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O Menino Alemão (German Boy: A Child in War)

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“Os inocentes expiam em geral os pecados que os outros cometem” é a forma perfeita de descrever a história verídica de Wolfgang. A Segunda Guerra Mundial está a decorrer e para os civis alemães a vida tornou-se um verdadeiro inferno, com bombardeamentos constantes que destroem as cidades e matam inocentes. A única opção é fugir para uma zona mais segura do país, mas é impossível saber com certeza quais são os lugares seguros e a própria fuga implica riscos. A fome, o frio, o medo são uma constante na vida deste menino que, desde muito cedo, tem que aprender a sobreviver e a garantir que aqueles que ama se encontram também a salvo. Wolfgang conseguiu preservar a sua meninice, a sua inocência, agarrando-se aos sonhos que tinha de uma vida melhor, fora dali. Mesmo quando a guerra terminou, a vida para os alemães comuns continuou a ser uma verdadeira guerra, principalmente para aqueles que estavam em zonas de ocupação russa. É uma perspetiva muito interessante do conflito mais sangrento da história da humanidade e que termina com a concretização do sonho de Wolfgang.

Um Segredo Amargo e Doce (Sweet Salt Air)

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Habitualmente, este não é o meu tipo de leitura, mas ganhei este livro num passatempo e a verdade é que fiquei completamente agarrada à história. Em tempos, Charlotte e Nicole foram melhores amigas, mas o tempo – e circunstâncias que acabam por vir ao de cima – acabaram por as fazer seguir vidas diferentes. No entanto, um dia, Nicole propõe a Charlotte escreverem juntas um livro sobre a culinária da fictícia Quinnipeague, para onde ambas rumam, a fim de levar a cabo o projeto. O reatar desta amizade que outrora foi tão próxima é tentador para as duas, mas vai trazer à tona um segredo que Charlotte guarda há demasiado tempo, que a poderá voltar a vetar à solidão e destruir os laços que as unem. Quinnipeague é um cenário tão fascinante quanto alguns dos seus habitantes, mas é na exploração da relação entre Charlotte e Nicole que este livro consegue agarrar o leitor.

Quanto a vocês, quais são aqueles livros que acham que davam boas adaptações?

Diana Sampaio