É indiscutível que 2017 foi um ano muito relevante para as mulheres. Foi um ano de luta, de conquistas, mas que nos mostrou que ainda há um longo caminho a percorrer, embora nos tenha dado a esperança de que, aos poucos, as coisas poderão estar a seguir o caminho certo.

No mundo das séries, nomes como A.J. Cook, Emmy Rossum, Gillian Anderson ou Kirsten Vangsness lutaram pela igualdade salarial que as colocaria no mesmo patamar que os seus colegas do sexo masculino, chegando mesmo a ameaçar não regressar às suas séries se tal não acontecesse. Numa indústria supostamente progressista, a desigualdade salarial ainda é muito notória e não distingue apenas homens e mulheres, prejudicando também as minorias. Foi precisamente isso que aconteceu com Daniel Dae Kim e Grace Park, ambos de origem coreana, que pediam igualdade salarial face aos seus colegas brancos e acabaram por deixar o elenco de Hawaii Five-O quando essas negociações falharam.

Depois, em outubro, o escândalo sexual que estalou com o famoso produtor Harvey Weinstein foi apenas o início de uma longa série de denúncias que envolveram outros nomes conhecidos como Kevin Spacey, Mark Schwahn, Bryan Singer, Danny Masterson, Jeremy Piven, T. J. Miller, Ed Westwick, Louis C.K., Jeffrey Tambor, Brett Ratner, James Franco e Andrew Kreisberg, para nomear apenas alguns ligados ao mundo das séries. Contra aquilo que eu esperava, a maioria deles foram afastados dos projetos em que se encontravam a trabalhar. Porquê a minha surpresa? Porque não estamos habituados a que homens brancos e poderosos sejam responsabilizados por este tipo de acusações. Foi precisamente essa impunidade em que se viveu durante anos e anos que lhes permitiu continuar a fazer o que faziam. Agrada-me poder dizer que isto é o princípio do fim destes abusos, embora seja lamentável que tenha sido preciso chegar ao século XXI para isso.

Já quase no final do ano, em dezembro, o movimento #MeToo foi distinguido como Personalidade do Ano pela revista Time, que não quis deixar de reconhecer a importância e a coragem de todas as mulheres que decidiram quebrar o silêncio para partilharem as suas experiências sobre os abusos que sofreram. Estamos finalmente a ter uma discussão pública sobre violação e assédio e as vítimas sentem que, pela primeira vez, estão realmente a ser ouvidas. Há a esperança de que, com isto, nenhum predador se sinta ‘seguro’ em apalpar uma rapariga ou uma mulher, masturbar-se à frente dela, dizer-lhe coisas obscenas ou fazer ainda pior, convencido de que ela simplesmente vai calar-se e aguentar o que quer que seja que ele queira fazer-lhe. TIME’S UP!

É assim que começa 2018: “TIME’S UP on silence, TIME’S UP on waiting, TIME’S UP on tolerating discrimination, harassment and abuse”. É este o mote para um novo movimento, igualmente importante, responsável por encorajar que as mulheres se vestissem de preto na 75.ª edição dos Golden Globes, de forma a mostrarem-se solidárias com as vítimas. No entanto, não foram só as mulheres a usarem o preto, muitos homens juntaram-se a esta causa. Aliás, o movimento Time’s Up não é dirigido apenas a nós mulheres, até porque não somos as únicas vítimas de assédio e de violação, não somos as únicas a sermos discriminadas.

Se nos outros anos as atenções dadas aos Golden Globes se prendiam com likes ou dislikes neste ou naquele vestido ou com os vencedores das principais categorias, este ano foi tão mais do que isso! Se um vestido era feio ou bonito não tinha importância, o que importava era que fosse preto. Quanto aos prémios, importava repetir as vitórias dos Emmys de The Handmaid’s Tale e Big Little Lies nalgumas das principais categorias. Estas séries ganharam uma importância ainda maior, sendo que uma nos apresenta uma sociedade distópica em que as mulheres férteis são propriedade de homens poderosos e a outra explora uma situação de violência doméstica. Com todo o mérito, ambas conseguiram as estatuetas. No entanto, face à atual situação, era realmente relevante que The Handmaid’s Tale e Big Little Lies ganhassem. A política nunca fica de fora deste tipo de prémios e era importante a indústria dar força ao que se está a passar. Não há menos mérito nestas vitórias por causa disso, até porque tanto a crítica como o público reservaram excelentes críticas às duas séries desde o início, muito antes de os abusos terem começado a ser expostos. A noite foi também muito positiva para a estreante The Marvelous Mrs. Maisel, sobre uma dona de casa dos anos 50 que decide aventurar-se no mundo da stand-up comedy. No lado das séries foi uma noite perfeita, mas se saltarmos para as categorias de filmes, é fácil – pelo menos para mim – solidarizar-me com o comentário feito por Natalie Portman sobre a exclusiva nomeação de homens na categoria de Melhor Realizador.

Os discursos dos vencedores da noite nunca nos fizeram esquecer o que se estava a passar, aquilo por que estamos a lutar, e Elisabeth Moss disse algo que me tocou especialmente ao receber o seu prémio de Melhor Atriz em Série Drámatica: “Margaret Atwood, isto é para si e para todas as mulheres que vieram antes de si e depois de si, que foram corajosas o suficiente para falar contra a intolerância e a injustiça e para lutar pela igualdade e pela liberdade no mundo. Já não vivemos nos espaços em branco nas margens das páginas impressas. [uma referência a palavras que podemos encontrar no livro que inspirou a série] Já não vivemos nos espaços entre histórias. Somos a história, impressa, e estamos nós próprias a escrever história”. No entanto, nada pode bater o discurso de Oprah Winfrey. Acho que nunca me vou esquecer da expressão de Viola Davis! Foi tocante, relevante, e ver os rostos na plateia, as reações ao que ela estava a dizer… Foi memorável. Espero mesmo que se candidate às presidenciais americanas em 2020, embora até agora tudo indique que tal não acontecerá. Hillary Clinton perdeu, em grande parte, por ser mulher, mas mais por culpa de não ser a mulher certa. Oprah sê-lo-ia.

Aliás, falando em Viola Davis, também ela, há cerca de um ano e meio, fez um discurso extremamente relevante nos Emmys. Em comum, os discursos de Oprah e Viola não têm apenas a sua importância, mas também o facto de ainda serem necessários. Não deviam. Já devíamos ter ultrapassado toda a discriminação de género, racial, sexual ou de classes, devíamos ter deixado há muito de fechar os olhos à corrupção, aos abusos, a tudo o que de errado se passa às claras, com a conivência de muitos.

A todas aquelas mulheres que disseram #MeToo, um muito obrigada! Ao expormos estes abusos, ao falarmos sobre eles, ao ouvirmos as vítimas e ao acreditarmos nelas, ao condenarmos os violadores, estamos a pôr um ponto final a uma sociedade que protege os culpados e culpabiliza as vítimas. Espero que esta mudança faça com que haja cada vez menos a necessidade de dizer #MeToo, até um mundo perfeito em que mais ninguém tenha de o dizer, como Oprah mencionou.

Eu não gosto do Dia da Mulher e sabem porquê? Porque não há um Dia do Homem. Não são os homens que estão a ser discriminados aqui por não terem um dia ‘especial’, somos nós que estamos a ser discriminadas por ainda precisarmos de um. A um mundo em que o 8 de março deixe de ser preciso!

Diana Sampaio