Se há séries que nos marcam e personagens inesquecíveis que sempre recordaremos com carinho, também há episódios memoráveis que nunca esqueceremos por este ou aquele motivo. Os finais de séries e/ou temporadas são propícios a emoções fortes e a ficarem gravados nas nossas memórias, mas nem sempre são esses os melhores ou os mais marcantes. Aqui ficam então alguns dos meus episódios preferidos do mundo das séries e que nunca esquecerei. Nem todos eles foram estrondosos em termos de enredo, mas têm em comum o facto de me terem agarrado ao ecrã como poucos foram capazes.

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American Crime Story – 01×06 – Marcia, Marcia, Marcia: Esta é daquelas séries fantásticas em que a maioria dos episódios são extraordinários. No entanto, este destaca-se entre os restantes pela forma como se debruça naquela que é a personagem mais interessante da série, Marcia Clark, interpretada pela fantástica Sarah Paulson. É um episódio muito forte que nos mostra como há menos de 25 anos uma mulher forte e bem sucedida profissionalmente tinha de lutar todos os dias para mostrar o seu valor, enfrentando o machismo dos seus colegas da equipa de defesa de O.J., que pareciam encarar o facto de Marcia ser uma mãe solteira e trabalhadora como uma piada. Marcia é humilhada em vários momentos, não só pelos outros advogados, mas em grande parte pela comunicação social, que parecia preocupar-se mais em criticar o cabelo e o guarda-roupa da procuradora do que em fazer a cobertura do julgamento. Estava em causa o homicídio de duas pessoas, mas a sociedade patriarcal e retrógrada que existia há vinte anos e que ainda hoje prevalece, relegou para segundo plano o que realmente importava para se debruçar sobre mexericos mesquinhos. Há certos momentos em que quase parece que é Marcia quem está a ser julgada e sabemos que isso acontece porque é mulher. Tal como a questão da raça foi usada pela defesa no julgamento, o facto de ser mulher foi uma arma usada contra Marcia por diversas vezes. É difícil assistir àquela mulher – que fez jogo limpo durante todo o julgamento, ao invés de contar uma história, como a defesa – ser arrasada, humilhada e alvo de piadas só porque fazia parte de algo que costumava ser um ‘clube de rapazes’. Marcia merecia todo o respeito que não teve. Este é o meu episódio preferido de toda a série, mas deixa-me triste ao mesmo tempo porque Marcia é apenas uma de muitas mulheres a serem discriminadas apenas à conta do género com que nasceram.

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Big Little Lies – 01×07 – You Get What You Need: Contrariamente a muitos, eu não acho Big Little Lies uma série extraordinária, mas este episódio é tudo o que se pode pedir. Uma série que tem a capacidade de entregar um final de temporada tão bom é certamente algo para continuar a seguir. Este é o episódio em que Perry, o vilão da série, deixa cair a ‘máscara’ e permite que todos o vejam como o monstro que é. É o episódio em que o abusador encontra várias mulheres fortes que se unem para proteger aquela que ele violentou durante anos. Mais do que tudo, é uma homenagem à força das mulheres, às que aguentam relações abusivas, e é em grande parte também um hino ao feminismo. Várias daquelas mulheres passaram a temporada em quezílias parvas, mas na altura em que foi preciso, elas colocaram todas as diferenças de parte e uniram-se para proteger Celeste, porque é uma delas. Aquele momento uniu-as, como só uma situação do género é capaz de unir um grupo de pessoas. Big Little Lies teve a capacidade de fazer acreditar que pode haver um final feliz para a mais trágica das histórias.

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Castle – 03×24 – Knockout: No geral, encarava Castle como uma série para descontrair, pela qual não esperava ansiosamente o episódio seguinte e foram raras as vezes em que o policial fugiu disso para mim, até um ponto em que deixei de ver, mas Knockout foi extraordinário. É um daqueles episódios em que há algo a acontecer em cada minuto e tudo o que acontece é empolgante. A trama explora acontecimentos relacionados com a morte da mãe de Beckett e o envolvimento do Capitão Montgomery na questão. Sente-se tensão, que algo de terrível vai acontecer, mas que resulta num produto excitante, digno de um bom thriller. O episódio só poderia ser mais extraordinário se houvesse alguma dúvida de que Kate poderia não sobreviver. No entanto, numa série destas, os protagonistas nunca morrem, por isso eu sabia que ela estava segura. Não que eu a quisesse morta (muito pelo contrário), mas a incerteza é sempre um ingrediente essencial de interesse quando se assiste a uma série.

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Grey’s Anatomy – 07×19 – It’s a Long Way Back: De todos os episódios desta lista, este é aquele que mais me diz. É o meu episódio preferido daquela que foi muitos anos a minha série de eleição e centrado em Callie, a minha personagem favorita do mundo das séries. É um episódio triste e terno, mas também repleto de esperança, acerca de sarar feridas físicas e emocionais. Muito importante também, é o episódio em posso dizer com alívio que Callie sobreviveu e está fora de perigo, que poderá ter um futuro com Arizona. É o episódio em que conhecemos Sofia, que devia ter nascido vários meses mais tarde e que desde muito cedo teve de lutar pela vida. É uma jornada extraordinária tanto para Callie como para a bebé, bem como para Arizona, para Mark e um pouco para todos à volta deles. Não há cena mais enternecedora do que os amigos de Callie a juntarem-se para a levarem às escondidas a ver Sofia pela primeira vez. É um momento mágico e que nunca perde a capacidade de emocionar por muitas vezes que o tenha visto.

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Jessica Jones – 01×09 – AKA Sin Bin: O tipo de episódio que adia a hora de deitar porque é impossível não querer ver o seguinte! Jessica tem Kilgrave refém numa sala hermeticamente selada com o intuito de o fazer confessar os seus crimes. Estão reunidos todos os ingredientes para um episódio de arromba quando o detetive Clemons, Hogarth, Trish e os pais de Kilgrave se juntam também no local. Louise quer matar o filho por causas dos crimes que ele cometeu, mas é ela quem acaba morta. Basicamente é um episódio em que muitas pessoas tentam matar-se umas às outras e é claro que a coisa tinha que acabar mal, com Kilgrave a conseguir escapar e Hogarth a ser a sacana que é sempre. Só ela para tentar manipular um assassino para eliminar os problemas com Wendy. Um episódio cheio de emoções fortes e com cenas extraordinárias!

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Once Upon a Time – 05×19 – Sisters: Once Upon a Time é a série em que pessoas que dantes se odiavam acabam por se tornar família, mas nada foi mais satisfatório do que ver Regina e Zelena passarem de inimigas que queriam destruir-se a verdadeiras irmãs. Quer dizer, Zelena invejava a vida que Regina tinha tido, mas não havia muito na vida que Regina teve com a mãe das duas para invejar; ser criada por Cora foi mais um inferno do que uma bênção. No entanto, são os flashbacks os grandes responsáveis por fazer deste episódio uma verdadeira delícia. Embora por breves momentos na infância, as duas meninas tiveram-se uma à outra como irmãs. Se as suas recordações desses tempos não tivessem sido apagadas, elas teriam crescido juntas, a amar-se e a apoiar-se como as irmãs devem fazer. Foram privadas disso e passaram então muito tempo a tentar destruir-se, mas era como se algo adormecido em cada uma delas soubesse algo sobre aquele passado longínquo. Este episódio cimentou a relação destas duas e permitiu que encontrassem conforto uma na outra, de uma forma como nunca conseguiram encontrar junto da própria mãe. Mostraram ambas terem-se distanciado muito das vilãs que outrora foram ao perdoar Cora que, sinceramente, não acho que mereça perdão. Aliás, ela é grande parte do motivo para as filhas terem seguido o caminho do mal, mas só delas veio o mérito de virar as costas a essa vida e fazer melhor por aqueles que amam.

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One Tree Hill – 04×16 – You Call It Madness, But I Call It Love: Houve alguns episódios memoráveis de One Tree Hill, nem todos pelos melhores motivos, mas este foi um dos bem sucedidos. Quando penso em momentos inesquecíveis da série não tenho dificuldade em enumerar vários, mas quando se trata de episódios inesquecíveis este é um dos primeiros a vir-me à cabeça. É o episódio em que o psicopata do Derek aprisiona Peyton e, mais tarde, Brooke. Peyton tenta convencer Derek a soltá-la para ser ela a matar Brooke e se, para nós espectadores, é óbvio que isso não passa de uma jogada para as duas conseguirem escapar, o insano Derek agarra-se à esperança de que Peyton o passa amar da mesma forma doentia com que ele a ama. A troca de insultos que Peyton e Brooke lançam uma à outra como forma de tornar todo o jogo mais convincente parece um pouco absurda, mas a verdade é que estão numa altura complicada da relação delas, em que já disseram muitas coisas que não deveriam ter sido ditas e, neste caso, estão apenas a manipular Derek. Apesar de tudo o que se possa ter passado entre elas, nunca deixariam de lutar uma pela outra. É precisamente isso que fazem, no sentido figurativo e literal. A amizade de Peyton e Brooke estava maltratada, mas o facto de se terem salvo mutuamente e de se terem unido quando mais precisaram foi essencial para seguirem em frente.

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Orange Is the New Black – 05×13 – Storm-y Weather: Este episódio foi o responsável por cimentar Orange Is the New Black como a minha série preferida. Storm-y Weather é um produto televisivo perfeito! É um episódio de emoções, com uma banda sonora extraordinária e que me deixou no desespero porque sabia que teria de esperar um ano ou mais para saber o destino de várias das minhas personagens favoritas. Uma série que tem a capacidade de nos deixar a pensar nela muito depois de termos terminado um episódio está a fazer um bom trabalho. E eu passei tantos meses a pensar em qual seria o destino destas mulheres e, vá, basicamente obcecada com tudo o que envolvia OITNB. Este episódio evoca aquilo que não consigo explicar muito bem, mas que para mim significa o verdadeiro espírito da série! Várias mulheres unidas, sem olhar a raças, estratos sociais, idades, amizades ou ao que quer que seja. Simplesmente dez mulheres unidas para enfrentarem juntas um destino que é incerto, mas que se avizinha tudo menos risonho. Elas sabem que podem morrer, mas, se tiver que ser, fá-lo-ão juntas. Unidas contra aqueles que as veem como meros números de presidiárias e não como as pessoas que são. Nunca vou conseguir ouvir To Build a Home sem sentir um aperto no coração. Todo o episódio é fantástico, mas esta última cena dá mesmo cabo de mim. Volta depressa, Orange!

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Parenthood – 06×13 – May God Bless and Keep You Always: Muitas vezes as séries esforçam-se para entregar ao público um final em que todos são felizes para sempre. Afinal de contas, é o que a maioria das pessoas gosta de ver, mas esses finais são muitas vezes artificiais porque na vida real as coisas nunca são assim. Parenthood teve a capacidade de terminar em grande, com um final feliz, é certo, mas que nos traz também um certo sentimento agridoce devido à morte de Zeek. Esta série teve sempre uma capacidade excelente para me enternecer e para me fazer torcer por aquelas pessoas e o final foi fiel a isso. Foi um final perfeito e não lhe teria mudado nada.

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Private Practice – 04×07 – Did You Hear What Happened to Charlotte King?: Sem dúvida, este é o melhor episódio das seis temporadas de Private Practice. Muito antes do abuso sexual ter gerado uma discussão pública que começou com o escândalo Weinstein, Private Practice abordou de uma forma arrepiante e tocante o tema da violação. Como mulher, é um tema que me diz muito; não consigo imaginar a brutalidade emocional que é viver algo assim. Aquelas de nós que não conseguem são as sortudas, porque não passámos por isso. No entanto, ver alguém viver uma situação destas, mesmo que seja numa série de ficção, é devastador. Charlotte é uma das minhas personagens preferidas da série e a imagem de mulher forte – e até um pouco dura – foi-nos apresentada desde o início, por isso é especialmente difícil vê-la assim: atacada, ferida, humilhada, num estado de fragilidade física e emocional, sem sequer poder recorrer a ‘drogas’ para lhe anestesiarem a dor porque isso significaria uma recaída na sua dependência de medicamentos. Depois Charlotte a querer manter a história de que foi roubada e espancada, omitindo a violação sexual que sofreu… Tal como acontece em muitos casos de mulheres que foram vítimas de algo assim, Charlotte quer esconder o que aconteceu dos outros. Addison é a única que sabe o que se passou e aquilo também tem um grande impacto sobre ela. Não foi a vítima, mas poderia ter sido. É impossível saber como é sem passar por isso, mas Charlotte mostrou de forma incrível o quanto é devastador.

Diana Sampaio