Recentemente terminei a mais recente temporada da série de culto Black Mirror, criada por Charlie Brooker. Foi um binge-watching incrivelmente rápido, mas que valeu por todos os segundos.

Para quem não conhece, Black Mirror é uma série antológica em que cada episódio é isolado em si mesmo. Isto é, ao contrário de séries como American Horror Story, que reciclam a história mas mantêm os membros do elenco, Black Mirror é totalmente original nestas áreas. Não há uma história linear nas temporadas, mas há algo que as une. O “espelho negro” é precisamente um reflexo negativo da influência da tecnologia em vários cenários de um futuro não muito distante.

O homem e a máquina têm uma relação de amor incrivelmente apaixonante. Tão apaixonante que nem nos damos conta do quanto necessitamos dela para viver no nosso dia a dia. É uma relação venenosa onde a máquina lucra mais do que nós. Estamos constantemente dependentes do computador para o nosso emprego, para o nosso entretenimento. Estamos dependentes da máquina de lavar roupa para termos vestes limpas todos os dias. O que era o nosso Natal sem o Sozinho em Casa a passar na televisão? Como poderíamos contactar com os nossos amigos sem o telemóvel? Seríamos mais cultos sem a Internet?

Com esta paixão que nutrimos pela tecnologia seria inevitável que quem a desenvolve continue a inovar e a criar cada vez mais artifícios para que o amor continue a aumentar. Mas será tudo assim tão apaixonante?

É precisamente neste panorama de paixão ardente que surge a obsessão. Somos obcecados pela inovação tecnológica. Ela chegou, conquistou e continua a dominar sem fim previsto. Há um exemplo muito prático que conduz precisamente à essência de Black Mirror. Recentemente os novos Samsungs explodem sem aviso e, por vezes, os seus utilizadores sofrem as consequências no seu próprio corpo; no entanto, não há nada que pare as pessoas de os comprarem. Aliás, as vendas nunca são afetadas porque um caso em 1394757302947 não dita as regras do consumismo.

Ou seja, mesmo com o perigo à espreita, continuamos a dar toda a liberdade da tecnologia entrar nas nossas vidas. Então, a mente de Charlie Brooker imagina inúmeros cenários onde a tecnologia age como um vilão (quase sempre invisível), capaz de destruir a mais feliz das famílias, de arruinar o negócio com mais sucesso, o de substituir a vida… pela morte.

Não é nenhum Exterminador Implacável, muito pelo contrário. A máquina de Black Mirror não é aquela que dispara ou que retalia conscientemente contra o ser humano. É precisamente aquela que se injeta na corrente sanguínea com todo o amor que quer receber de nós. O facilitismo e a recorrente metodologia de adaptar a robótica para melhorar as condições de vida numa escala global são precisamente os motivos que impulsionam esta obsessão ardente.

Se nunca viram Black Mirror, esta é precisamente a altura ideal. Não esperem por spoilers desta série tão pouco difundida. Não há como os dar porque cada episódio é precisamente um novo conto, uma nova descoberta. Vejam “com moderação”, porque Black Mirror suga-nos para um mundo diferente. Um mundo de onde, tal como as personagens de todos os episódios de todas as temporadas, não conseguem escapar.

Jorge Lestre