Não vale a pena ignorar que, mesmo adorando as nossas séries, elas têm também o condão de dar connosco em doidos, seja com personagens parvos ou com casais que não fazem sentido, por causa de uma escrita descuidada e efeitos especiais ainda piores, seja por ideias de enredos que quase não lembrariam nem ao Diabo. Assim sendo, vou debruçar-me sobre aquelas storylines de algumas das minhas séries que foram tão absurdas ou sem sentido que ainda me deixam chateada.

Big-Little-Lies_Madeline-caso-amoroso

O caso amoroso de Madeline com Joseph (Big Little Lies): Nas séries parece haver uma necessidade de arruinar aquilo que não deveria ser arruinado e, em consequência disso, há sempre alguém que parecia ter todos os ingredientes para ser feliz, mas a quem pelos vistos falta algo e depois colmata essa falta fazendo algo estúpido. Essa coisa estúpida passa muitas vezes por estragar uma relação. Como? Com uma traição. Desde o primeiro segundo que achei uma estupidez (e um cliché) Madeline envolver-se com o tipo do teatro. Ed deve ser um dos maridos mais porreiros de sempre e uma traição não é algo muito digno, mas Madeline não estava contente com a vida dela. Ok! Eu não fiquei contente com aquela storyline, achei que era uma escrita previsível, uma forma preguiçosa de mostrar que o casamento de Madeline e Ed só era perfeito à superfície. No entanto, para isso tínhamos Celeste e Perry, numa história convincente e bem mais relevante. Depois, quando li num artigo que a infidelidade de Madeleine tinha sido uma invenção da série que não constava do livro (que ainda tenho que ler), tudo fez mais sentido para mim. Estas ‘liberdades’ que, por vezes, se tomam em televisão (ou no cinema) para se distanciarem um pouco do produto original não costumam ser boa ideia. É mais um exemplo disso.

Ghost_Whisperer

Jim morre e volta noutro corpo [Ghost Whisperer]: Este é o tipo de coisa que sempre me fez manter um pouco afastada do género de fantasia: mortos que nunca se sabe se estão realmente mortos e que podem voltar de alguma forma. A série era literalmente sobre uma mulher que falava e ouvia pessoas mortas e que as ajudava a fazer a transição para o outro lado. Até aqui tudo bem, a premissa era essa e não fugia disso, mas morrer e voltar no corpo de outra pessoa? Ainda para mais sem se lembrar do passado, de Melinda, da história deles? Porque é que não morreu simplesmente, para poder ser ajudado por Melinda a passar para o outro lado, por exemplo? Não, Jim teve de voltar no corpo de outro homem e de se debater com amnésia, ao início, para depois começar a ter recordações, tanto dele como do homem cujo corpo habita. Jim era um personagem agradável, mas entre vê-lo morrer ou assistir àquela palermice? Escolhia vê-lo morrer.

Dan-Humphrey_Gossip-Girl

Dan ser a Gossip Girl [Gossip Girl]: Sinceramente eu não tinha palpites sobre quem poderia ser a Gossip Girl, nem sequer havia alguém que eu dissesse que queria que fosse ela, mas Dan? Teria sido tão melhor que fosse Dorota, como várias pessoas chegaram a suspeitar, ou um personagem que não conhecíamos assim tão bem, mas que de alguma forma tivesse tido uma ligação com um dos personagens principais. Ser alguém do círculo pareceu-me completamente desajustado e nada satisfatório, uma vez que a revelação da Gossip Girl era o mistério de toda a série. Só que o pior de tudo foi o facto de Dan ter exposto todas as pessoas que conhecia, incluindo a própria irmã, e depois tudo ter sido esquecido. Não percebi como é que Serena foi capaz de ficar com ele no final! Eu sei que ele era o elemento exterior ao grupo e que sentia que não fazia realmente parte daquele mundo, mas isso não devia servir como justificação. Ou melhor, poderia ter servido, desde que Dan tivesse acabado da mesma forma como começou, de fora. As ações dele não tiveram verdadeiras consequências e ficaram impunes, quando teria feito muito mais sentido que ninguém lhe perdoasse.

Grey's_venda_hospital

O processo judicial e a venda do hospital [Grey’s Anatomy]: Seria possível fazer uma crónica completa só com enredos absurdos de Grey’s Anatomy, mas decidi escolher apenas um, aquele que para mim se destaca em muitos sentidos. Tudo começou com o acidente de avião que resultaria nas mortes de Lexie e Mark, na perda da perna de Arizona e em danos emocionais para muitos. Penso que é lógico quando um avião se despenha por algum motivo, responsabilizar a companhia a que ele pertence ou os responsáveis pelas inspeções aos motores. Nalguns casos a culpa poderá também ser do piloto. Estas parecem-me as opções mais razoáveis numa qualquer situação do género. Só que quem acabou por ser processado foi o hospital, o responsável por os ter colocado naquele avião. E havia um tecnicismo absolutamente absurdo sobre ser suposto irem apenas dois attendings a bordo e que, ao substituir Alex, Arizona fez subir esse número para três. Alguém me explica a lógica disto? Isto colocava então a responsabilidade toda sobre o Seattle Grey Mercy West, que ficou na iminência de falir por causa das indemnizações aos lesados. Então a solução para evitar tudo isto era reduzir nos custos e surgiu a possibilidade de encerramento das urgências. Já é perturbador o suficiente ver um grande hospital a ter que reduzir custos sabe-se lá onde e imaginar que também a saúde e a medicina não passam de um negócio, mas achei completamente absurdo quando surgiu a ideia de serem os próprios médicos, juntamente com investidores, a comprarem um hospital. Não faço ideia de quanto custa, muito menos quanto será necessário para o manter a funcionar devidamente, mas para mim não fez sentido, nem quando a Fundação Harper Avery disponibilizou o resto do dinheiro para tornar tudo possível. É o tipo de ideia prodigiosa que só pode vir da mente fértil de Shonda Rhimes e da sua equipa.

Robin Scherbatsky & Barney Stinson

O casamento de Robin e Barney [How I Met Your Mother]: Barney sempre fugiu de relações sérias e de compromissos como o Diabo da cruz e Robin também nunca foi aquele tipo de mulher que sonha com o casamento, por isso foi estranho vê-los começarem algo sério que os levaria ao altar. Até porque Robin foi um grande amor na vida de Ted e – embora isso não tivesse que ser um impedimento para uma relação com outra pessoa no seio do grupo de amigos – foi estranho vê-la com Barney. É certo que os dois até tinham uma personalidade mais parecida, mas isso nunca chegou para construir uma relação e fazê-la durar. Acho que foi um desperdício terem apresentado Barney como averso a compromissos anos e anos para depois o fazerem casar, ainda por cima quando desperdiçaram uma temporada inteira com isso. Não consigo encarar esta mudança em Barney como um crescimento natural do personagem. Não faz sentido que alguém nos seus 20 e muitos, trinta anos, despreze o conceito de monogamia e do casamento para depois ceder àquilo que parece ser a norma na sociedade. Não faz sentido para o personagem, não faz sentido para mim e não o fez para a série. Nem todos têm de acabar felizes casados e com filhos. Pode ser a felicidade máxima para algumas pessoas, mas não o é para tantas outras. Barney e Robin não acabaram felizes para sempre juntos, mas só o facto de ter havido essa possibilidade… O final que cada um deles teve, individualmente, foi outra grande desilusão. A última temporada arruinou uma série que até aí tinha sido bastante agradável de acompanhar.

Once_Regina-separacao-Evil-Queen
Regina separar-se do seu lado evil [Once Upon a Time]: O meu problema com este enredo é muito diferente. A possibilidade de termos duas Reginas por aí e a eventualidade de um confronto entre as suas metades era aliciante para mim. Penso que o terá sido para muitos fãs. No entanto, pareceu-me demasiado absurdo que Regina achasse que era boa ideia livrar-se do seu lado mau, aquele que ela queria colocar para trás das costas, e que não haveria consequências. Emma e Snow estavam lá e também nenhuma delas foi capaz de impedir Regina de fazer aquele disparate. Este enredo também peca por ser uma espécie de retrocesso no caminho que Regina percorrera até ali. Ela foi a Rainha Má da história de muita gente, mas redimiu-se o mais que pôde, tornou-se uma pessoa muito diferente daquela que era na Floresta Encantada. Nem sempre foi fácil para ela lidar com os erros do passado, mas não havia nada a fazer para o emendar ou para o apagar, a única coisa que Regina podia fazer era aceitar que ele tinha existido, mas que já não era aquela pessoa. Livrar-se do seu lado mau pareceu-me quase como uma forma de renegar toda a sua história, o caminho que percorreu, e uma saída demasiado fácil para um passado do qual passara a envergonhar-se.

One-Tree-Hill_Katie_psicopata

A semelhança entre Katie psicopata e a mulher de Clay [One Tree Hill]: Por muito que eu adore OTH, acho que poucas séries conseguiram forjar enredos tão absurdos, numa fraca tentativa de atribuir um certo estilo de thriller e mistério à narrativa. Não há muitas ideias mais parvas que a da ama psicopata ou a da tipa que é parecida com a falecida mulher de alguém, mas vamos concentrar-nos nesta última. Lição número 1: cuidado quando se depararem com alguém demasiado parecido com outra pessoa do vosso passado. Esse alguém pode ter uns quantos parafusos a menos e tornar-se obcecado por vocês, em vez de ser ao contrário. Só há uma palavra para descrever Katie e é desequilibrada. Pintou o cabelo para se parecer ainda mais com Sara, tentou agir como ela, ‘entrando’ na cabeça de Clay. No entanto, ela vê em Quinn, como namorada de Clay, uma ameaça a uma possível relação entre os dois. As duas tentam destruir-se mutuamente e chegam a lutar fisicamente, numa cena típica de um mau filme. Coisas más e perturbadoras podem sempre acontecer, mas quando uma série não sabe construir uma história decente à volta disso, mais valia nem tentar. O psicopata obcecado por Peyton não foi a melhor narrativa de sempre, mas também não foi má, por isso deviam ter-se ficado por aí. One Tree Hill foi perfeita quase sempre, mas Katie foi um espinho na história da série.

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O acidente de Mariana e Jesus [The Fosters]: Nada contra o acidente em si, só com o resultado e a forma como lidaram com ele. Os dois gémeos tiveram um aparatoso acidente de carro que nos deixou semanas a perguntar-nos se algum deles teria morrido. Durante algum tempo, quando a série regressou, fomos manipulados a pensar que Jesus teria morrido. Não morreu. O que em princípio seria uma boa notícia, já que era um dos meus personagens preferidos. No entanto, quando reapareceu, deixara de ser interpretado por Jake T. Austin e passou a ser Noah Centineo a dar-lhe vida. Os dois atores não são nada parecidos; o primeiro, que interpretava o personagem em mais novo, é mais velho que o segundo… Não podiam ter feito como a maioria das séries, que matam um personagem quando o ator deixa de estar disponível para o papel? O acidente teria sido uma excelente forma, não forçada, de matar o personagem, mas desperdiçaram-na e escolheram trazê-lo de volta, mas com uma cara completamente diferente. Digno de Ghost Whisperer!

Quais foram os enredos das vossas séries que acharam absurdos? Partilhem connosco.

Diana Sampaio