13 Reasons Why é o mais recente sucesso da Netflix e conta a história de Hannah (Katherine Langford), uma jovem que decide colocar um ponto final na sua vida, cometendo o suicídio, não sem antes deixar cassetes onde explica as razões que a levaram a tomar tal decisão. A série além de toda a história que a envolve, emoção atrás de emoção, intrigantes desempenhos e uma extraordinária banda sonora digna de arrepiar (e de uma playlist, que é o caso), é, acima de tudo, uma vivência bem real do nosso dia a dia. Mas a tua vida não tem que ser uma cassete, faz stop. [Pode conter ligeiros spoilers]

Já alguma vez sofreste de bullying? Já te questionaste se conheces alguém vítima desta ou de outra violência, desde depressão à violação? Ou mesmo tu, já passaste por algo? Já alguma vez te auto-mutilaste? Já pensaste que todos estavam contra ti? Já pensaste em pôr fim à tua vida? Na série, é possível analisar vários sintomas que fazem com que, infelizmente, hoje em dia não sejam apenas retratados numa série, mas sim na realidade, uma triste e cruel realidade. E o pior é que muitos de nós, de uma forma ou outra, acabamos por contribuir para ela, seja por já o termos feito, voluntária ou involuntariamente, seja por fecharmos os olhos e não quereremos ver o que nos rodeia, seja simplesmente por querer ajudar e não conseguir. Mas e se um conhecido, amigo ou um familiar, vivesse tudo o que Hannah viveu e, de uma forma ou outra, desse os sinais que precisavam de ser dados, mas nunca ninguém fizesse nada a esse respeito? Como viverias a tua vida? Eras capaz de viver normalmente e saber que nada fizeste para o mudar? E se fores tu, que neste momento está a ler este texto ou simplesmente quando viste a série identificaste-te? Nem que seja por uma palavra, é este o teu dia a dia? Não precisa, nem deve ser.

Em cada episódio da série é revelada alguma particularidade com que te possas identificar, seja simplesmente pelas estúpidas alcunhas, por mensagens escritas nas casas de banho, por conheceres alguém que foi abusado sexualmente, por te sentires menosprezado e humilhado, por se acharem melhores ou superiores que tu, por pensarem que podem brincar com os teus sentimentos, no fundo, por pensarem que podem ser eles a fazer a tua vida, ou melhor, a destruir o que poderá restar dela. Imagina, que durante o teu ano letivo ou trabalho, que em vez de aprenderes e conviveres, o que aprendes é a viver em sofrimento. Durante dias, meses ou anos és alvo de tal crueldade que te leva a perder o propósito de viver. Infelizmente, muitos de nós, de uma forma ou de outra, somos alvos deste mal. Seja no ensino, no trabalho ou em casa, a nossa maneira de estar e viver a vida tem de continuar a moldar-se de forma a que o ser humano se entreajude e não o contrário, destruindo-se uns aos outros por milhares de motivos que possam, aparentemente, justificar tal coisa.

No ensino que frequentas, se tens conhecimento de algo, faz com que a tua voz seja ouvida, faz com que a vítima peça ajuda, faz com que mereça a pena viver. Luta por isso, ninguém tem o direito de menosprezar os outros, pior ainda, tirar a vida a alguém. No trabalho, faz o mesmo, muda mentalidades e ajuda quem precisa. Em casa, faz tudo isto e mais, pois no fundo, são aqueles que te devem amar e não o contrário. Falar é fácil, eu sei, tomar atitudes é difícil, mas na vida, o que um dia é fácil, noutro pode tornar-se difícil, ou vice-versa. Represálias, sim, elas existem e quem é que não as teme? Ter medo de falar ou agir quando é necessário, mas haverá maior represália do que não fazer nada até que seja tarde de mais? Para ficares com uma pequena ideia, e só em Portugal, no ano escolar 2015/2016 foram reportadas cerca de 4757 situações, uma realidade triste, que garantem estar àquem da verdadeira realidade do país. A juntar a isto, Portugal é um dos países com a maior taxa de suicídios. Apesar de não se conseguir contabilizar apenas os suicídios jovens ou causados por sofrerem de bullying (não estou com isto a dizer que os adultos não sofram do mesmo, até pelo contrário, já que afeta qualquer idade), segundo o último estudo conhecido, a taxa de suicídio cresceu em 2014. Passou para 11,7 por 100 mil habitantes, quando em 2012 e 2013 tinha sido de 10,1 por 100 mil habitantes. Imagina tamanho sofrimento que as vítimas aguentam para pensarem colocar um fim à sua vida, perdendo o que de melhor ela possa oferecer. Imaginas?

Contudo, e como sempre na vida, nem tudo tem apenas um lado negativo, existe também o positivo e é a esse que nos devemos agarrar. Tal como na série, também tens motivos para lutar e ser feliz. Seja por aquela amizade, por aquele amor, por aquela família, seja por ti mesmo. Mas primeiro que tudo, e se vives ou sabes de alguém que vive em sofrimento, pede ajuda. Com o intuito de apoiar todos os que sofrem diariamente, foi criado o site http://13reasonswhy.info, no qual é possível escolher um país e saber como obter ajuda. No nosso caso, Portugal, está representado através da SOS Voz Amiga e, numa breve análise no site, é possível constatar que os pedidos de ajuda aumentam de ano para ano. Faz o mesmo. Faz stop e deixa que a tua voz seja ouvida.

Porque haveria uma rapariga morta de mentir? Dá que pensar, não dá? Vive a série, vive os momentos com ela e acima de tudo, retira uma aprendizagem da mesma. Querendo ou não, 13 Reasons Why é um retrato praticamente perfeito da imperfeição do dia a dia de muitos de nós. É um exercício televisivo que nos faz repensar na maneira de viver a vida. É uma vivência que se torna tão real ao ponto de te identificares com ela ou com alguém da sociedade. É uma série que marca e que merece ser vivida com toda a emoção. Mas uma coisa é certa, a tua vida não é uma cassete, nem uma série, é real e cabe a cada um de nós fazer que essa realidade seja a melhor possível, sejas tu ou quem te rodeia, não deixes que tenha o mesmo fim que Hannah. Luta por ti, luta por alguém, luta por ser ou fazer alguém feliz.

Se ficaste curioso por saber mais, podes ler aqui a review da série.

Ricardo Santos